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domingo, 7 de julho de 2024

Haicai e Poetrix - Francisco José

Haicai e Poetrix 


O Haicai teve suas origens no waka (poema japonês), no século VIII e começou a ser escrito no Japão em 712. O waka se subdividia nos estilos: kata-uta, chôka e tanka. O kata-uta (meio-poema), que tinha o ritmo silábico 5-7-7 era composto como uma resposta a um destinatário (daí o termo "meio poema"). Ainda no século VIII surge o estilo chôka (poema longo) em que se adiciona uma estrofe dupla (5-7) à estrofe tripla do kata-uta, passando ao estilo silábico (5-7; 5-7-7). No século IX surge o tanka, com distribuição silábica diferente (5-7; 5-7; 7) evoluindo três séculos mais tarde para uma forma bipartida (5-7-5; 7-7), cuja primeira parte é usada até hoje. Dois ou mais poetas passam a fazer poemas em cadeia (estilo renga), separando-se em dois estilos opostos: o ushin-renga (renga sério, ligado à elite literária) e o renga "ligeiro" (praticado por poetas do povo). Essas práticas deram origem a duas escolas distintas: Teimon (fundada por Matsunaga Teitoku) seguindo os critérios rígidos e Danrin (criada por Nishiyama Sôin), seguindo o critério informal. No século XVII Matsuo Bashô, que era ligado às duas correntes, funda sua própria escola (Shômon) nascendo o haikai (com versos no estilo 5-7-5) que chegou até nós. No início do século XX o haikai chega ao Brasil e poetas como Guilherme de Almeida "abrasileiram" o haicai raiz, modificando-o e criando o haicai Guilhermino. Assim é que outros poetas como Paulo Leminski e Milôr Fernandes entram também nessa moda, criando seus haicais "personalizados". Vale lembrar que Kobayashi Issa (1763-1827), um dos maiores poetas do haicai japonês já acentuava a presença do eu, em contraposição aos preceitos de Bashô, mas é um eu lírico afirmativo, que se "dissolve" nos limites do não-eu. 

Em 1999, na Bienal da Bahia, um poeta baiano, Goulart Gomes, intenta criar os haicais "goulardianos" no livro "Haikais tropi-kais". O crítico literário Aníbal Bessa percebe que Goulart não estava escrevendo haicais, mas havia criado um novo gênero poético inspirado no haicai... Nasce, no ano 2000, um movimento amplo constituído por poetas do Brasil e outros países, o Movimento Internacional Poetrix (MIP) para estudar, desenvolver e divulgar o novo gênero de poesia, que passara a se chamar Poetrix. Em 2020 é fundada a Academia Internacional Poetrix (AIP), hoje composta por poetrixtas de vários países, como Brasil, Portugal, Estados Unidos e Itália, como exemplos.


Por - Francisco José Soares Torres 
AIP - Cadeira 24



Na foto abaixo: Angela Bretas, Francisco José, Pedro Cardoso, Lorenzo Ferrari, Marilda Confortin [apresentadora], Marília Tavernard, José de Castro, Gilvânia Machado, Dirce Carneiro e Bianca Reis. Participaram ainda: Goulart Gomes [criador do Poetrix], Andréa Abdala [presidente da AIP], Lílian Maial, Luciene Avanzini, todos membros da AIP e Margarida Montejano (convidada). Foto compartilhada por Angela Bretas .




terça-feira, 8 de agosto de 2023

Poetrix Ilustrados, por Marilda Confortin


GRAFITRIX


Desde que conheci o Poetrix, tenho visto vários tipos de Poetrix ilustrados. Não sei quem cunhou o termo “Grafitrix”. Não encontrei nenhuma teoria sobre o assunto.

Existem estudos, artigos e cursos aprofundando a complexidade da fusão imagem-texto, mas, neste ensaio, só vou falar da minha opinião pessoal sobre os Poemas denominados por nós de Grafitrix. Também não vou analisar aqui se os poemas atendem as Diretrizes atuais da AIP. O foco é a relação imagem-texto.

Vou separar os Grafitrix em dois grupos: 1) Os que me incomodam visualmente; 2) os que são classificados como Grafitrix só porque foram salvos como imagem e no terceiro tópico irei discorrer sobre os desafios de um bom grafitrix.

1) Os que me incomodam visualmente:

Os poluídos: Grafitrix que utilizam imagens com muita informação. Em casos assim, o poetrix é um elemento secundário, além de ser um péssimo exemplo para nós, minimalistas. Nosso negócio é a poesia. Ela deve ser o destaque, o foco principal do Grafitrix. Por mais maravilhosa que seja a imagem, quando mal utilizada, como no caso hipotético abaixo, ela literalmente mata o poema.


Os ilegíveis: Grafitrix que usam fontes de letras inadequadas. Muito pequenas, caligráficas, adolescentes, rebuscadas ou na mesma cor do fundo. No Grafitrix, o leitor deve ser induzido a penetrar primeiro na leitura textual e só depois na leitura visual.



Os vaidosos: São Grafitrix cuja imagem é a fotografia do próprio autor. Pode ser útil num convite

sexta-feira, 11 de março de 2022

A arte do título no Poetrix, por José de Castro


Colocar títulos em poetrix é uma arte. Aliás, o título é de suma importância, pois ele situa e contextualiza o poetrix e dá significado ao texto.

Geralmente, o título é o que vem por último num processo de criação literária. Assim acontece em poemas, contos e romances. Depois de escrever, o autor atribui à sua produção um título que servirá como um convite à leitura, atraindo a atenção do leitor.

Pode acontecer de alguém, primeiramente, ter um título em mente para depois escrever o poema ou texto.

Assim, podemos ter dois pontos de partida:
– um poetrix em busca de um título;
– um título em busca de um poetrix.

Escolhe-se, de acordo com a situação.

Para ser um bom título, precisará atender a alguns requisitos.

Primeiramente, que tamanho deve ter o título?

Sabe-se que o título de um poetrix pode ter o tamanho que se quiser, pois as palavras não entram na contagem das sílabas. Isto não quer dizer que devemos abusar, criando títulos quilométricos, pois o poetrix é um gênero minimalista.

Então, reflita: existe algum propósito específico para um título longo? Você tem uma justificativa sólida, uma razão forte e intencional para causar algum impacto? Mesmo assim, saiba que não existe nenhuma garantia se isso funcionará a favor ou contra a sua ideia.

Portanto, prefira um título minimalista que diga muito com poucas palavras.

O título pode ser uma síntese ou um guia de leitura do poetrix e até mesmo um complemento, um algo mais. Poderá também estabelecer analogias ou provocar contrastes em relação ao tema.

Um bom título deve ser instigante e provocativo para chamar a atenção do leitor. É recomendável que

Fatiar ou não fatiar - por José de Castro

 


“FATIAR OU NÃO FATIAR, EIS A QUESTÃO.”
(Shakespeare Poe...trixta)

Por José de Castro*


Venho observando que o poetrix tem um certo charme e grande facilidade para angariar adeptos. Só no Recanto das Letras contabiliza-se quase 180 mil poetrix, um volume bem maior que o do seu ancestral milenar, o haicai. Uma das razões para isso deve-se ao fato de as pessoas acharem o seu cânone simples e fácil de seguir. Afinal, é um terceto com até 30 sílabas poéticas, dotado de título. Um poema pequeno que, ao contrário do haicai, pode situar-se tanto no presente quanto no passado ou no futuro. Além do mais, a temática é livre, podendo tratar de qualquer assunto. Permite figuras de linguagem, pode ser surreal, usar o nonsense e explorar outras possibilidades, quase infinitas.

Por tudo isso, observa-se essa produção significativa. Só que muitos estão escrevendo tercetos comuns, que não se enquadram com perfeição dentro do cânone, pois não percebem certos detalhes sutis que se escondem entre o título e os versos para se conseguir escrever um poetrix genuíno, “puro sangue”, como se diz.

Um dos principais equívocos ou descuidos cometidos refere-se a algo que, infelizmente, é uma prática ainda muito comum: versos construídos a partir de uma frase quebrada em duas ou três partes. Na maioria dos casos a pessoa nem se dá conta disso. Às vezes, o próprio título incorre nesse mesmo pecado de não se bastar por si só.

A Bula Poetrix toca nessa questão, sem aprofundá-la. Um dos objetivos desse texto é lançar um pouco de luz sobre essa questão. Vejamos o que a Bula diz no subitem 5.1, do item 5, Contraindicações: “Evitar as orações coordenadas. Um poetrix não é uma frase fragmentada em três partes.” 
Já o texto “Diretrizes da AIP”, no item 1.2 Independência sintática de cada verso, alerta: “No Poetrix, cada verso apresenta independência sintática, de modo que não se separam os termos de uma oração em dois ou três versos só para compor o terceto. Para efeito de rima e métrica, isso é comum em outros poemas, mas, no Poetrix, cada linha tem seu sentido plenamente definido.

Sob minha ótica, qualquer tipo de fragmentação entre versos, ou entre o próprio título e o primeiro verso, deve ser evitada. Por exemplo, a quebra de uma frase em duas, entre o primeiro e o segundo verso não deve ocorrer. Deve-se evitar também quando isso ocorre entre o segundo e o terceiro versos. Em todos esses casos há um desperdício, uma subutilização dos versos, perda de oportunidade poética.

Outra coisa: na poesia, existe um conceito batizado de “enjabement”, que é a ruptura de uma unidade sintática no final de uma linha ou entre dois versos, caracterizando uma quebra, quando um verso continua no outro. Isso pode ser válido para os poemas mais longos, nos quais há espaço para se trabalhar com folga. Não é o caso do poetrix, no qual o campo expressional é um espaço mínimo que precisa ser bem aproveitado. O poeta deve extrair o máximo de poeticidade, tanto no título quanto nos três versos. Deve utilizar o máximo de recursos que embelezam um poetrix, como as metáforas, por exemplo. Ou procurar dar o “salto” ou surpreender o leitor com algo inesperado. Então, no lugar de quebrar frases, deve buscar elementos narrativos que encantem o leitor. Por isso, acho estranho quando o poeta se dá ao desperdício de elaborar versos, cada um deles, sem expressão própria. Com isso, perde-se a oportunidade de experimentar novos caminhos para o poetrix avançar em sua linguagem minimalista. Na verdade, estão criando tercetos, como tantos que existem, e os chamam indevidamente de poetrix.

Algumas pessoas costumam dizer que a segmentação de frases pode ser permitida quando existe poeticidade. Discordo, pois o conceito de poeticidade é muito subjetivo. O que parece poético para alguém pode não ser considerado assim por outro. Contudo, uma quebra de frase sempre será vista como um arranhão no cânone poetrix, que precisa ser respeitado e valorizado como definidor do que é ou não é um poetrix.

Outros, têm receio que essa observação em não segmentar frases afaste iniciantes do gênero, que achariam o cânone complicado. Não enxergo dessa maneira, pois é melhor que todos aqueles que quiserem escrever poetrix, desde o começo, já saibam que nem todo terceto pode ser considerado um poetrix. Sob pena de termos uma infinidade de pessoas escrevendo algo que, na verdade, não é poetrix. Considero que o não segmentar frases, seja em dois ou três versos, é uma das principais características definidoras do gênero, ao lado de outras que já foram mencionadas, como figuras de linguagem, o salto e a surpresa, além de se buscar atender aos valores preconizados pelo teórico e escritor Ítalo Calvino, nascido em Cuba e radicado na Itália, em sua obra Seis propostas para o próximo milênio.

Vejamos alguns exemplos de “poetrix” segmentados em frases. Mostraremos alguns artifícios para se corrigir isso. Para evitar constrangimentos, usarei, nestes casos, poetrix elaborados por mim.

O primeiro caso:

1.

DÚVIDA

Aquela canção
Daquela noite de lua
Foi amor ou bebedeira?

Observe que o primeiro verso tem seguimento no segundo: “aquela canção daquela noite de lua”.

Como resolver isto? 

Metrificação - por Ana Mello


Métrica é a medida do verso, a divisão dos versos em sílabas poéticas. A contagem das sílabas poéticas é chamada de escansão e o estudo do metro (medida do verso) - metrificação. Fazer a escansão é escandir, dividir o verso em sílabas poéticas.

As sílabas métricas, ou poéticas diferem das sílabas gramaticais, a sílaba poética é baseada na tonicidade. Contam-se as sílabas ou sons até a tônica da última palavra de um verso.


A medição de versos obedece às seguintes particularidades:

Sinalefa: Junção de duas sílabas numa só, por elisão, crase ou sinérese.

Elisão: Supressão da vogal final átona quando esta estiver diante da vogal que inicia a palavra que se segue.

Crase: Fusão de vogais iguais.

Sinérese: Contração de duas vogais contíguas em um ditongo.

Diésere: Separação de vogais numa mesma palavra, constituindo duas sílabas distintas.

Hiato: Encontro de duas vogais átonas, constituindo uma única sílaba.


Então na prática é assim:

Conta-se da primeira sílaba da primeira palavra até a sílaba tônica da última palavra do verso; o que vier depois é ignorado.

Quando uma palavra termina em vogal e a palavra seguinte começa em vogal, as sílabas em que essas vogais estão se juntam e contam como uma só.

Os dígrafos –rr– e –ss– não se separam. 

Exemplo:

O/ poe/ ta é/ um/ fin/ gi/ dor - 7 Sílabas literárias

O/ po/ e/ ta/ é/ um/ fin/ gi/ dor - 9 Sílabas gramaticais

Fin/ ge/ tão/ com/ ple/ ta/ men/ te - 7 Sílabas literárias

Fin/ ge/ tão/ com/ ple/ ta/ men/ te - 8 Sílabas gramaticais

Que/ che/ ga a/ fin/ gir/ que é/ dor - 7 sílabas literárias

Que/ che/ ga/ a/ fin/ gir/ que/ é/ dor - 9 Sílabas gramaticais

A/ dor/ que/ de/ ve/ ras/ sen/ te - 7 sílabas literárias

A/ dor/ que/ de/ ve/ ras/ sen/ te - 8 Sílabas gramaticais

(Parte de “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa)


Quanto ao número de sílabas poéticas, os versos são classificados da seguinte forma:

Monossílabos - 1 sílaba
Dissílabos - 2 sílabas
Trissílabos - 3 sílabas
Tetrassílabos - 4 sílabas
Pentassílabos (ou Redondilha Menor) - 5 sílabas
Hexassílabos (ou Heroico Quebrado) - 6 sílabas
Heptassílabos (Redondilha Maior) - 7 sílabas
Octossílabos - 8 sílabas
Eneassílabos - 9 sílabas
Decassílabos - 10 sílabas
Hendecassílabos - 11 sílabas
Dodecassílabos - 12 sílabas
Bárbaros - mais do que 12 sílabas

Quando os versos têm o mesmo número de sílabas poéticas, ou seja, são regulares, eles recebem o nome de isométricos.

Quando os versos não apresentam regularidade, são chamados de heterométricos. Versos livres aqueles que não obedecem a qualquer forma e versos brancos aqueles que podem apresentar métrica, mas não possuem rimas.

Ana Mello - cadeira 3 da AIP

A importância do título, por Pedro Cardoso


Na maioria das vezes se inicia uma composição pelo título, mas nem sempre isto é possível ou razoável, até porque o processo de produção não é o mesmo para todas as pessoas que gostam de escrever.

O título é uma designação atribuída a um determinado texto. É como um registro de nascimento, no Poetrix é obrigatório.

O cuidado dispensado ao título deve ser redobrado. Ele direciona o leitor, dá a diretriz do texto, aponta uma trilha. Isto sem falar que pode despertar o interesse pela leitura.

Uma observação: muitos sonetos de Camões são conhecidos pelo primeiro verso, é como se não tivessem uma "marca" definida, uma referência que leve o leitor àquele poema.

Para ilustrar minha teoria, apresento dois Poetrix onde o texto é o mesmo, mas o sentido é completamente diferente.

1 - Empatia

quando a gente se cansa
um do outro
está na hora de trocar de lugar

Só a empatia nos permite compreender as razões do outro.
O título, associado ao poema, nos traz a ideia de que quando estamos cansados um do outro, é preciso que nos coloquemos no lugar dele, na posição dele. Que não o olhemos apenas como um espelho, como algo acabado. É como se nos transportarmos para o outro e nos depararmos com os problemas dele, com os sentimentos e percepções dele, para que assim, pudéssemos compreendê-lo de fato, através do seu próprio olhar e não apenas do nosso ponto de vista. E finalmente conseguimos, retornando ao olhar original, nos vermos inteiramente, quem sabe? Ou até de forma renovada – com a possibilidade de construirmos a relação.

2 - Outro eu

quando a gente se cansa
um do outro
está na hora de trocar de lugar

Por outro lado, no poema “Outro eu”,

Seis Propostas para o Próximo Milênio, por Pedro Cardoso


Tenho dedicado boa parte do meu tempo para escrever sobre o Poetrix, por acreditar que este gênero literário ainda está dando seus primeiros passos, de uma longa jornada. É bom lembrar, ainda assim, que ele foi criado há mais de vinte anos, pelo poeta baiano Goulart Gomes, em um momento de lucidez e ousadia.

O Poetrix tem uma ligação muito forte com as propostas para o próximo Milênio, do escritor cubano Ítalo Calvino. Um dos autores mais importantes da segunda metade do século XX.

Calvino reuniu o conteúdo de cinco Conferências, que faria em Harvard. Através delas, propunha para as próximas gerações a perenidade de determinados valores literários. Listados por ele na seguinte ordem: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência. Contudo, o autor faleceu antes de escrever o que seria "a última Conferência" da série.

Para auxiliar a compreensão dos novos poetrixtas, vou falar sobre cada uma destas propostas, exemplificando. Conforme a minha concepção:

sábado, 17 de julho de 2021

Antologia Analítica, por Pedro Cardoso

Antologia Analítica

Por Pedro Cardoso


Prezados amigos poetrixtas e amantes dos tercetos que chamamos de Poetrix.

Faz alguns anos que venho colecionando os Poetrix dos meus sonhos, poemas que gostaria de ter escrito. E, de alguma forma, os considero como sendo de minha autoria, ainda que... por alguns segundos.
Sempre os leio com admiração e zelo. E, quanto mais o faço, mais escrevo sobre eles. Às vezes peço à minha mulher para lê-los em voz alta, para que eu possa senti-los melhor. Deste modo, vou retirando deles as minhas conclusões. É assim também que vou registrando os meus mais puros devaneios poéticos.

Estou constantemente buscando novas possibilidades de leitura e interpretação daquilo que o autor deixou registrado.
Sempre me baseio nas entrelinhas e nos ensinamentos de Ítalo Calvino, que é, praticamente, o nosso norte, o nosso guia enquanto escritores de Poetrix.
É importante deixar claro que essas são as minhas interpretações, mas que outras, com certeza, serão feitas e quem sabe até, de formas contrárias às minhas.

Em tempo... este é um eficiente processo de aprendizagem. O que mais gosto. E que agora compartilho com vocês, por acreditar que contribui imensamente no treino e uso da Bula Poetrix, em todos os seus ensinamentos.

1 - Aparências

óculos sem lente
atente
só armação

Vejam só! Vou fazer uma... leitura deste Poetrix, que é de autoria do poetrixta Dreyf, um amigo de São Paulo.

O título "Aparências" se encaixa perfeitamente ao texto. Deixa claro que se trata de algo que se usa como "disfarce", ou que transforma a imagem das pessoas. Aquilo que se mostra imediatamente.
O primeiro verso: "óculos sem lente", é algo inusitado - um SUSTO!
No poema, este verso tem uma força bem marcante. É sem dúvida o verso mais robusto do terceto.
Ele rima com o segundo verso, uma rima super interessante - lente com atente.
Às vezes, os óculos são tão fortes que se tornam uma marca registrada em algumas pessoas. Como exemplos, ressalto as figuras de John Lennon e Janis Joplin. Seus óculos faziam parte de suas personalidades. Talvez nem precisassem das lentes!
Mas o grande lance está no terceiro verso, onde a palavra "armação" impõe um duplo sentido ao texto: o leitor pode ler uma "armação propriamente dita", como pode ter a sensação de uma "armação" preparada pelo vendedor que tenta frauda-lo na hora da venda.
Este artifício é muito bom. É rara uma artimanha desta natureza.

2 - desculpe

o transtorno:
estou em
construção

Um exemplo de Poetrix do poeta Beto Quelhas.

Este terceto nos mostra uma característica distinta. Esta não é uma configuração comum. Aqui, como podemos ver, o título faz parte do texto. Sem ele o poema ficaria sem visibilidade, sem sentido algum. Ainda mais por sua concisão, com poucos vocábulos. Mas quando lido na sua totalidade, faz todo o sentido.
É como se fosse uma placa de advertência.
É importante observar que ele pode ser confundido com uma quadra. Portanto, cuidado!
Chamo atenção também para a sua estética, bem refinada.
É singular atentar que o autor não usa letras maiúsculas no seu texto, isto é uma carteirista própria dele, uma marca registrada do poeta Beto Quelhas. Gosto desta particularidade, embora não a utilize.

3 - Sonsas

Estrelas
não dizem a verdade.
Elas piscam

Um terceto da poeta Lílian Maial, que sempre vai e volta em minhas leituras.

O que falar deste poema?! Já o li inúmeras vezes e, quanto mais o leio, mais me encanto por sua simplicidade e delicadeza. Ele foi escrito há um bom tempo e não saiu do meu foco. Estou sempre a reverenciá-lo.
O título "Sonsas" é muito bem pensado. Induz o leitor a um possível enigma, alguma traquinagem, algo que age de modo sorrateiro, que esconde suas reais verdades. Observe que quando se diz que determinada pessoa é sonsa significa que ela aparenta ser de alguma maneira agradável, inocente ou ser digna de outros adjetivos, mas no fundo, não é!
Começa com "Estrelas", com letra maiúscula. Podem ser as Estrelas do Universo ou pessoas- Estrelas. Isto será reforçado no desfecho do Poetrix: 'Elas piscam", abrindo novamente a possibilidade do duplo sentido.
No segundo verso temos um ponto final. Este sinal gráfico, como o próprio nome indica, é utilizado no final de frases para que se faça uma pausa mais longa, o que provoca no leitor um susto - "não dizem a verdade." A pontuação, neste caso, é vital.
O texto em si realça o que foi dito no título.
Este é um achado que só se vê nos Poetrix muito bem elaborados, bem pensados.
Este é o poder da concisão.

4 - Este é um dos experimentos do meu amigo/irmão, Hércio.

- fosse eu foice
drástico o corte
- vida e morte

Fiquei surpreso ao ver que realmente não havia um título explícito. (Há que se lembrar que no início do movimento Poetrix, o título era recomendado e não obrigatório). Logo em seguida, ele justificou que o seu poema havia nascido pagão.
As regras atuais do Poetrix rezam que os títulos são indispensáveis, obrigatórios. São eles que direcionam o leitor, que dão a ideia do que vai ser tratado.
É lícito dizer que a grande maioria das pessoas só conhecem os títulos das obras. Seus conteúdos, seus enredos, suas falas, muitas vezes são verdadeiros mistérios escondidos nos livros das prateleiras das bibliotecas. Assim sendo, o Hércio, na minha visão, pode dar nome ao seu poema a qualquer dia e hora, sem prejuízo algum, fazendo com que ele deixe de ser um filho pagão por excelência.
Ainda digo mais, se eu fosse ele, colocaria o título depois do texto, invertendo a lógica das coisas. (Vale ressaltar que isto não é previsto na Bula Poetrix). Deste modo, o título passaria a ser o enigma da obra. Uma vez que lemos a obra para depois conhecer o seu título. E, como sugestão, ofereço o título: "Severina".

5 - Um Poetrix Concreto de minha autoria.

Círculo vicioso


   S
S O S
   S


Não gosto de, eu mesmo, esmiuçar os meus poemas, acho que o possível encanto desaparece. Mas não vou me furtar a revelar os meus sentimentos, aqui retratados, por exemplo.
Este Poetrix concreto tem uma concisão inacreditável pois só foram usadas uma vogal e uma consoante na sua construção. Chega ao extremo de não termos como contar as sílabas, contudo permite uma infinidade de interpretações.
É circular, é dinâmico, é apelativo, é instantâneo e de grande força visual.
Retrata um pedido de socorro, em qualquer idioma.
Além de ter uma estética diferenciada e chamativa.
É assim que o vejo e revejo, constantemente. Na expectativa de que um dia ele salte dos meus olhos.

6 - Gostaria que observassem o Poetrix da poeta Áqueda Mendes da Silva.

No céu cor de chumbo

ora em fita
ora em flecha...
fogem as garças

Veja o título: “No céu cor de chumbo”. A autora já nos leva a imaginar um sinal de perigo, nos dá um aviso de que algo é ameaçador, que o tempo não está nada tranquilo. Ela se posiciona: a situação é de total pavor.
Aqui ela nos mostra, claramente, o medo perante a um fenômeno da natureza, que se avizinha.
Quando ela diz: "ora em fita/ora em flecha...", está descrevendo ao leitor a dinâmica da situação, que vai se alternando há todo instante. Sabe-se que essas aves vão se revezando na dianteira em seus voos para que possam atingir longas distâncias sem que um dos seus membros seja sacrificado ou que tenha que fazer um esforço além de suas possibilidades.
No terceiro verso, o susto: "fogem as garças". É praticamente possível “ouvir” a algazarra que elas fazem quando estão em risco de vida.
Nessa situação, voam com maior rapidez. Aos gritos, revelam o temor diante de um acontecimento perigoso da natureza.
Pode-se inferir, inclusive, que tal visão também reflita sentimentos de alguém que assista ou, até mesmo, viva uma situação de ameaça.

7 - Encanta(dor)

uma flauta doce
toda furada
deu nova vida ao bambu

Este Poetrix é de autoria do poeta Hércio Afonso. Está publicado em seu livro: Minha primeira vez, página 60.
É importante observar que o título é fundamental, nos dá a ideia do que pode ser a identidade do poema. É como se fosse a certidão de nascimento da composição.
Veja que, aqui, o título foi dividido para nos dizer que a dor também pode ser transformadora, e transformada...em momentos encantadores!
É interessante observar que existe uma lógica (flauta-furada-bambu) entre os versos e o título.
Os encantadores de cobras que o digam. Com suas flautas, fazem o que querem com as serpentes mais nocivas ao ser humano.
No primeiro verso – "uma flauta doce" – o autor poderia ter dito apenas “uma flauta” que não mudaria em nada o texto, porém ele quis que o leitor percebesse que era um instrumento de bambu e não o de madeira torneada, como era usado na Idade Média que continha aberturas para sete dedos e uma especial para o dedo polegar, que servia como furo de oitava. O "doce" também reforça a ideia de suavidade e positividade.
No segundo verso a expressão “toda furada”, nos leva a imaginar um velho utensílio, judiado...
O terceiro verso nos dá um susto quando reafirma a sobrevida que é dada ao bambu, através do som melodioso do instrumento.
A formação das imagens que vão sendo construídas quando vai-se lendo o poema vão muito além dos três versos e da escrita.
O texto passa a ser uma referência poética.
As imagens permanecem por um longo tempo em nosso imaginário poético e suas sensações também!
É assim que se constrói um belo Poetrix. Não basta escrever três versos. É preciso que se use rimas ricas, que se ofereça ao leitor imagens elegantes que o façam viajar para outros acordes, novos mundos metafóricos.
Que dê a quem lê, uma nova dimensão das coisas.
É por isso que eu repito: E viva a poesia!!!

8 - destino

na dúvida
siga as borboletas
:elas sabem

Sempre que leio os Poetrix do amigo Beto Quelhas percebo, na maioria deles, a intenção de uma apresentação que seja esteticamente semelhante à do Hai-cai. Esta é uma outra marca registrada do autor.
Outro detalhe que me chama a atenção em seus Poetrix, salvo engano, é o fato de que ele sempre coloca a primeira letra do título em destaque.
Veja, no Poetrix acima, que a letra “d” não está escrita com letra maiúscula. Aqui não dá para perceber, mas no original a fonte é diferente e está na cor vermelha, um destaque visual bem interessante. Esta é uma característica marcante e forte nos escritos do autor.
Quanto à qualidade do Poetrix e da mensagem... por ele passada, não é necessário dizer muita coisa. Poderia falar de metamorfose, cores, leveza, destino... enfim, várias simbologias. Mas ele fala por si !
Um Poetrix de tirar o fôlego! Carregado de significado.

9 - Dizer-me

não vale
a pena
... nem a tinta

Este poema é da poetisa Sônia Godoy, uma autora de extrema concisão e realismo em suas palavras. Não foi à toa que a escolhi como Patrona da minha Cadeira, de número 18, na AIP (Academia Internacional Poetrix).
O título faz parte do texto, sem ele, o poema fica solto. Ele é fundamental para o entendimento do leitor, ainda mais para aquele que não está acostumado com a perspicácia do minimalismo.
O poema nos passa a sensação de um desabafo, com luvas de pelica. O desdém é absurdo!
A palavra "pena" tem dois sentidos importantes no contexto. Numa primeira leitura podemos dizer que não vale a "pena da caneta". É algo sem valor monetário. Em uma releitura, no entanto, podemos entender que não vale a pena perder tempo, nada mais faz sentido, não vai-se tentar novamente uma auto tradução.
O terceiro verso: "... nem a tinta" é de uma ironia que chega a doer na carne, o desprezo é total. As reticências aparecem como um derradeiro suspiro, mesmo estando no início do verso, uma última pausa para o veredicto final. Mostra que tudo já foi dito.
A autora revela que só as palavras não bastam, que é necessário muito mais do que isso. E que, talvez, só o toque, o roçar, o falar com as mãos fossem capazes de traduzi-la.

10 - Outro poema que escolhi para continuar com meus comentários foi da Ângela Bretas.

(Má)(Temática)

não adiciono
sou
sub(traída)

Este poema não necessita do título para ser compreendido, o texto por si só, já nos oferece a mensagem que a autora quis passar. Isso não implica dizer que o título não seja relevante, pelo contrário.
"(Má)(Temática)" é algo fabuloso, nos oferece duas leituras completamente distintas, que estão intimamente relacionadas com o todo.
A (Má) temática, nos leva ao entendimento de que o assunto é ruim, de que talvez o tema "amor", por exemplo, seja cabuloso, complexo.
Por outro lado, temos a Matemática como ciência exata.
Isto se repete quando lemos "subtraída", no sentido de que ela foi diminuída (se assim podemos falar) da relação, ou seja, foi alijada da vida do outro. Assim como no primeiro verso, onde ela afirma que não adiciona, não acrescenta.
A sutileza da ironia está no sub(traída). Aqui a autora afirma que foi traída, mas quando coloca a palavra traída entre parênteses, antecedida de "sub", ela talvez possa estar sugerindo que foi traída por alguém inferior a ela, alguém que já não faz a menor diferença. Ou talvez que ela seja, ou se sinta, diminuída.
A "ironia" já se apresenta desde o primeiro verso, quando escreve: "não adiciono".
Um Poetrix forte, ousado e carregado de sentimentos!

11 - Morte
Anthero Monteiro

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga

Antero Monteiro é um poeta português que sempre nos presenteou com sua escrita de forma clara e gostosa.
Em 2003, postou na página do grupo Poetrix o poema Morte.
Já no título fala na existência da alma nos poemas.
Para algumas religiões a alma está relacionada com a transcendência do corpo.
No Poetrix isto acontece, porém, de formas diferentes. A alma está também relacionada à dimensão, ao alcance dele. Uma outra forma de transcender.
Veja que no primeiro verso está dito: "uma cadeira vazia na alameda" e, no segundo: "sentada numa tarde de outono". Quem está sentado? A cadeira está vazia. Alguém não está mais ali, presente.
O terceiro verso é límpido: "a olhar o meu ponto de fuga". Quem está fugindo? O ponto de fuga dá a profundidade dos objetos, é a linha que traça o nível do olhar em relação ao horizonte - lá longe, a fugir dos olhos.
É assim que o autor talvez estivesse se olhando. Ali, construindo a sua perspectiva, sua visão tridimensional em relação à Morte, ou até à sua morte. Veja que ele projetou seu ponto de fuga em uma alameda, em uma tarde de outono, justamente quando as árvores estão mudando suas folhas.
Ele (ou outro alguém) estava construindo o seu caminho encantado...quando as árvores tornam-se amareladas ou avermelhadas..
A concepção do poema em relação ao mistério da morte e a dor do autor, são a liberdade, a sublimação.

12 - Um dos exemplos que mais gosto dos poemas Concretos, dentro do Poetrix, é "Devolva-me", da poetisa Sônia Godoy, uma das mais importantes escritoras desta nova linguagem, minha Patrona!
Fiz "uso" dele, inclusive, para iniciar meu discurso de posse, na AIP (Academia Internacional Poetrix)

Devolva-me

       AS
          AS
             AS

Este poema está absolutamente dentro dos padrões aceitos como Poetrix, ou seja: é um terceto (onde os três versos estão representados pelas letras A e S), tem título, tem concisão e acima de tudo, tem personalidade.
A leitura poética parece simples, mas não é.
Uma das possíveis leituras nos leva a entender que a autora está pedindo que lhe devolvam a liberdade, as asas - o poder sair por aí, pois algo estaria lhe sufocando, lhe tirando o oxigênio.
É importante notar que, mesmo sendo um poema Concreto, o título, neste caso, exerce papel fundamental na compreensão do texto. Sem ele o entendimento seria impraticável.
Outro ponto marcante é que a autora não escreveu o texto na vertical, o que seria mais lógico. Preferiu uma escrita na diagonal para nos passar a ideia de que as suas inquietações estão em constante agitação, uma vez que "as asas" sugerem tais movimentos.

Vejam uma outra leitura, feita pela poeta Tê Soares, uma ferrenha defensora do Poetrix, professora de Literatura e uma baita Amiga.
"Este Concreto exige um certo voo na leitura já que eu o interpreto como tendo a mensagem final: devolvam-me as asas, os sonhos, a capacidade de sair do chão. A forma que o aprisiona é a mensagem subliminar do Concreto. Nem sempre retratar uma contradição é fácil e, nesse caso, o visual se apresenta como uma imposição da realidade, já que, de outra forma (as sílabas em outra posição), representaria leveza".

Mais uma leitura possível, desta vez, de uma contista gaúcha de nome Tânia Melo, uma amiga que gosta dos Concretos.
"Interpretei, inicialmente, como o “querer de volta”, diversas coisas que lhe foram roubadas pela relação. Só depois consegui vislumbrar "as asas" e, com isso valorizei ainda mais o poema, muito bom".

Agora, a leitura da própria autora (escrita para mim, tenho muita honra em dizer!): “Estava apaixonada, fui abrindo mão de tudo, perdendo as asas. Finalmente tentei voar, voar pra longe (mas não conseguia), assim descobri que as asas são formadas por “as” e mais “as”. Daí... Foi só gritar, gritar: Devolva-me as asas, como se a culpa da minha incapacidade fosse ele. A riqueza dos poemas Concretos me inspirou a escrever este poema

Formas diferentes de falar de coisas semelhantes.
E viva a poesia!!!

13 - Outro Concreto que me chama a atenção é o poema “Exemplo”, da poetisa baiana Sandra Mamede, que está sempre nos brindando com seus belos Concretos.
                                  v
                               i
                           v
                       a
                   m
               o
           s
como
           o
              s
                 g
                    a
                       n
                           S
                              O
                                 S

O mais intrigante é a ideia da autora de nos conclamarmos a viver como os gansos... em bando.
Veja que ela nos remete a uma forma de vida mais rude, supostamente, do que a que vivemos hoje. Esses pássaros são, como diz o título, exemplos de cooperativismo, onde um "puxa" o outro. Dizem, os mais entendidos no assunto, que quando o primeiro está cansado, ele troca de posição com o que está mais atrás, visando atingir um bem comum. Esta mudança é para que nenhum deles fique mais sobrecarregado do que o outro.
Outro dado fundamental neste poema está na ponta da asa inferior, onde a autora pede socorro. Escrevi o “SOS” com letras maiúsculas para ratificar o detalhe.

Tê Soares registrou: "Este é magistral. É contundente, explícito e me deixa sem ter o que falar pela concretude, pela capacidade de ser a poesia na imagem fiel da realidade".

Tânia Melo comentou: "O poema dos gansos é belíssimo. Fala só pela imagem, mesmo antes de serem lidas as palavras".

14 - É interessante escrever sobre Poetrix, em especial, de amigos. Às vezes eles nos levam a outros mundos e interpretações, que nem os próprios autores imaginaram.
Este é um dos exercícios que mais gosto de fazer quando leio esses pequenos poemas. Pequenos na escrita, nos dizeres... porém, verdadeiros gigantes nas possibilidades!
Vai aqui a minha leitura sobre dois destes poemas da saudosa poeta Kathleen Lessa.

(AD)VENTO

A (real)idade não existe...
Ao vento (a)vento-a,
(In)vento-a. Ventoinha.

Já, no título, percebemos a preocupação da criatividade que se estende para todo o texto.
É curioso notar, nos escritos da autora, a preocupação da escolha das palavras que oferecem duplo sentido. Fica clara a intenção de não apenas escrever mais um texto, mas sim, brincar com ele de uma maneira mais agradável e exuberante.
O primeiro verso, de forma subliminar, nos diz que a real idade não existe. Nem a realidade...talvez exista.
No segundo e no terceiro, a autora faz um bom jogo de palavras, para dizer que inventa a real idade.
A palavra “ventoinha”, uma peça de carro que serve para resfriar o motor, aqui, funciona como um ventilador que espalha a real idade para o seu mundo e o mundo exterior.
Além de todas essas possíveis leituras, destaco a pontuação do poema. Um elemento importante no contexto do Poetrix. A boa pontuação enriquece o texto, valoriza a leitura.

Outro Poetrix interessante da Kathleen Lessa.

Ah, Maquiavel...

O mundo está vazio
De atitudes honestas,
A que meios justifiquem fins

Um título excelente, bem pensado. Ao invés de usar uma exclamação no final, a autora usou a reticência, como se dissesse: vai, continua...
No primeiro verso ela diz que o mundo está vazio. Eu pergunto: é verdade? Ou ela está "brincando"?!
Maquiavel disse: “O homem prudente deve seguir sempre as vias traçadas pelos grandes personagens...”. Quando a autora afirma que “o mundo está vazio//de atitudes honestas”, ela está nos inquirindo quanto às lições de Maquiavel. E mais, que nós estamos seguindo pessoas erradas; que estamos sendo levados por aqueles que usam de todos os meios desonestos para justificarem seus atos ilícitos.
Quando a autora se refere a Maquiavel, ela nos obriga a uma reflexão política, nos leva a pensar em algo maior do que o próprio poema. Neste caso, o Poetrix serviu apenas como um trampolim, o mensageiro de sua fala!

15 - Uma leitura de um Poetrix da poetrixta Judith de Souza.

Existencial

desertei-me.
nem miragens
me trazem oásis

O título “Existencial” pode, de cara, nos levar ao Existencialismo de Sócrates, Platão e provavelmente, o de Sartre. Para Sartre a existência precede a essência.
Quando a autora diz no primeiro verso “desertei-me” ela dá a entender que está recusando a sua própria existência, provavelmente carente da "água", escassa, que seria essencial para manter-lhe a vida.
Mas ela parece ainda saber da sua importância como pessoa, como ser humano que é.
No segundo e terceiro versos, quando lemos: “nem miragens/ me trazem oásis” podemos inferir que está dizendo que nem aquilo que ela “cria” em sua mente, lhe trás mais felicidade. É possível que o amor que existia fosse maior que a miragem que, agora, apenas na imaginação, poderia lhe trazer o oásis, a redenção.
Não deixa de sugerir a essência da "união" de duas pessoas que se separaram.
Ou até mesmo das dores que a vida tem lhe trazido.
Do lado da técnica este Poetrix é o que todo poetrixta procura. Um título condizente com o texto, um poema conciso, de leitura fácil e que permite várias releituras.
A palavra “desertei-me” é o centro de todo o poema. Uma palavra interessante dentro do contexto, pois trás na sua literalidade a possibilidade de múltiplas interpretações. Uma delas a aridez de estar só ou ainda, a possibilidade de se estar sozinha em meio à multidão. Miragem é outra palavra que induz o leitor a criar em sua mente uma situação real de deserto com oásis por perto. Por falar em oásis, ele se contrapõe ao clima desértico criado no primeiro verso.
Muito bem escrito, sem dúvida!

16 - Um exemplo da poeta Maria Nelci.

Ninguém vê e nada pode ser ouvido

cinema mudo
natureza morta
cegos a olhar!

Um Poetrix interessante! Cheio de dicotomias.
Se fizermos uma leitura atropelada, podemos cair na armadilha preparada pela autora. Ela diz no título: “ninguém vê”. Mas as pessoas não estão dentro de um cinema? E as imagens?
Ela ainda diz: “natureza morta”. Está-se falando de uma obra de arte, um quadro em exposição? As pessoas estariam vendo-o, mas talvez, não estariam o enxergando.
Talvez até seja possível inferir aí uma possível crítica às pessoas que vão aos museus em busca de obras específicas, obras conhecidas mundialmente, e com isso, perdem a oportunidade de verem e descobrirem novas maravilhas.
A concisão do poema é intensa, poucas palavras nos levam a um mundo de várias leituras, este é um dos segredos do Poetrix.
Outro ponto importante do poema está na outra parte do título: “nada pode ser ouvido”. Aqui a crítica é mais severa e verdadeira. Se as pessoas não entenderem, com certeza, de nada adianta o que pode ser dito.
Quanto mais leio este Poetrix, mais imagens e leituras me vêm à mente.
Este jogo entre natureza morta e cinema mudo, é bastante rico. O termo Natureza-morta refere-se à arte de pintar e desenhar objetos inanimados, como frutas, jarros, cestos, entre outros. O filme mudo é aquele que não possui falas e sim sons que correspondem às imagens exibidas. Estas expressões da arte estão ligadas de uma maneira muito peculiar. No cinema mudo você vê, entende o que está acontecendo, embora não ouça os diálogos que são travados através dos sinais. Nos quadros de Natureza-morta você vê e também entende, porém existem significados que vão além do que está ali representado. Essas telas representam cenas religiosas.
As pessoas não veem além...
Por tudo isso e talvez, muito mais, a autora afirma... “Cegos” a olhar!

17 - Este é um dos raros exemplos de Poetrix que tenho guardado a sete chaves. É de autoria do Poetrixta, Lorenzo Ferrari, um amigo que fiz, através do Poetrix. Um dos únicos com o qual foi feito Duplix por Sara Fazib.

Flash

Lança seu andar em calças brancas,
Firmamento de um desejo inalterado
Em sedução e loucura, me calo.

Veja que este Poetrix tem um texto mais extenso, contrastando com o título: "Flash"... não tinha como ser diferente! Em um flash, várias coisas podem acontecer, e, mais ainda, acompanhadas de grandes sensações e sentimentos. Muito bacana!
O título, bem colocado, já nos dá a tônica do texto. Não deixa dúvida de que se trata de algo passageiro e veloz.
Quando o autor diz: "Lança seu andar em calças brancas", logo no primeiro verso, ele está retratando o caminhar "apressado" de alguém que não está ao "seu alcance" - um piscar de olhos e foi-se!
No segundo verso ele revela o seu segredo: "Firmamento de um desejo inalterado".
A cena se passa como um raio, quem viu, viu!
No entanto, nada mudou para ele. Por isso ele diz: "Em sedução e loucura, me calo."
O último verso é muito bonito, nele o autor deixa clara a sua frustração diante do que ele desejava e que lhe fugiu das mãos, em um mísero instante. Aqui eu lhe pergunto, meu amigo, e se este verso fosse assim?

Passar_ela

em sedução
e loucura,
me calo.

Teríamos um Poetrix dentro do outro. Confesso que nunca vi isto. Fica lançada a ideia.
Um exemplo de como um único Poetrix pode ser rico e abrir novas possibilidades poéticas!
E viva a Poesia!!!

18 - Divi_dida

não queria
ser deus,
só duas...

Um Poetrix que gosto muito, da minha amiga, Aila Magalhães.
É até difícil fazer comentários sobre este terceto, tendo em vista sua grande concisão. São três versos bem pequenos, mas carregados de significados.
Um título inovador. Já nos dá a entender que há uma divisão. Ou algo partido ao meio. Ou dois inteiros, separados.
O texto em si não exigiria um título. Diz tudo por si só! Sua importância, no entanto, continua existindo pelo fato de que a Bula Poetrix exige que estes tercetos tenham título. Uma de suas marcas registradas.
O primeiro e o segundo versos formam uma ironia pra lá de refinada, um exagero literário! Ela diz que não queria ser deus. Observe que a autora escreveu "deus" com letra minúscula, deixando claro que ela está se referindo a um deus, quase que de carne e osso. Talvez se reportando a uma deusa, com tantos afazeres, diuturnamente. Um ser "normal", de fato e de direito, não conseguirá fazer tanto! A mulher em seus dilemas e dicotomias.
No terceiro verso, ela se revela como uma pessoa "quase" normal, dizendo que só queria ser duas. Talvez para fazer frente a tantas obrigações cotidianas ou, até mesmo, para ter o direito de ser mais de uma, não se enquadrando em quaisquer estereótipos.
E viva a concisão!!!

19 - Fugaz

cama desarrumada,
liberdade para as borboletas
estampadas nos lençóis...

Como é bom poder falar da minha amiga e parceira, Tê Soares. Companheira dos versos e dos bate-papos lá do início do ano de 2000. Juntos criamos o Duplix, o Triplix e o Multiplix, que têm nos dado tantas alegrias.
Mas o que quero, neste momento, é falar sobre o seu belo e intenso Poetrix.
O título já vem com uma força desproporcional, nos dizendo que se trata de algo que desaparece rapidamente, ou que dura muito pouco. É um momento - efêmero e passageiro.
O primeiro verso já descreve o fato, nos mínimos detalhes - "cama desarrumada". Não precisa dizer mais nada!
O segundo e o terceiro versos são carregados de simbologia. Borboletas que transcendem os lençóis, seus "casulos". É como se a liberdade se tornasse total e irrestrita.

*Este Poetrix tirou o 1º Lugar nos I Jogos Florais, “Palavras e Música”, Chamusca – Portugal.

20 - Assalariado

vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade boia, fria

Um expressivo Poetrix de Goulart Gomes, o criador do Poetrix. Amigo que ganhei de presente, junto com os tercetos.
Uma crítica social muito forte.
Refere-se aos trabalhadores que têm uma remuneração mensal, a ser paga por serviços prestados.
O primeiro verso expressa nitidamente a revolta do autor com a condição "desumana" em que vivem os que vendem suas vidas por um punhado de moedas.
Continua evidente no segundo verso, quando diz: "pelo pão de cada dia". Aqui ele reforça o que foi dito anteriormente - muito trabalho, pelo básico.
É importante observar que depois da palavra "boia", no último verso, tem uma vírgula. Ela ressalta o significado do que chamamos de "boia-fria", trabalhador que leva sua refeição de casa para se alimentar no lugar em que trabalha. Porém, vai muito além disso. A liberdade do assalariado boia..... fria, ou seja, inexiste.
Penso que o autor está nos dizendo que o assalariado, de modo geral, não consegue fugir do contexto no qual foi inserido e do qual depende a sua sobrevivência e a dos seus. Por tudo isso, sua liberdade é apenas aparente. Porque, "se vende por um prato de comida" - fica à margem da sociedade, como se fosse um número nas estatísticas e não uma pessoa.

A palavra "fria" no último verso, é de uma ironia ferrenha, dantesca. Retrata com exatidão a crueldade que tal situação representa dentro de uma sociedade capitalista. Tão duradoura e injusta, que já esfriou...

Realidade dura, porém, poesia de grande beleza e alcance.

E viva a Poesia!!!

21 - Um exemplo da poeta Sara Fazib.

n a d a d o r

A dor era rasa.
A mágoa
mal chegava no peito.

Este é um Poetrix de rara construção, um daqueles que gostaria de ler todos os dias.
Começando pelo título.
Veja que ela escreveu nadador com espaços entre as letras e com todas as letras em minúsculo, este não é um caso comum. Confesso que ainda não vi outro título escrito desta forma. Isto não foi por mero acaso, não sei o que foi que ela pensou, mas imagino que foi para dar a ideia de que, aquela dor, já vinha se arrastando, deixando um rastro. Que fosse alguma coisa intermitente, que cessa e recomeça por intervalos descontínuos.
Para completar a minha sensação, no título ela ainda rimou nadador com dor. O que ficou muito bom.
Veja que contraponto incrível: o título "n a d a d o r" com o primeiro verso que diz: "A dor era rasa". Ah, que coisa! Na verdade, não era rasa nem funda, apenas uma dor de "mentirinha".
Note que a autora põe um ponto final logo no primeiro verso como se já dissesse tudo. Mas em seguida retoma a fala para dizer que a mágoa nem chegava no peito, para confirmar que a dor, mesmo sendo dor, era algo quase irrelevante.
Uma outra possível interpretação seria a de que a dor ainda não era funda o suficiente para encher o peito e inundar os olhos, mas isto não a fazia pequena. Pelo contrário.
Um Poetrix com uma pontuação bem condizente com o texto, além de uma boa concisão e leveza.

22 - Este é mais um voo poético que realizo com um enorme prazer e dedicação ao Poetrix. Convido vocês a voarem comigo rumo ao infinito dos versos.

E viva a poesia!!!

Pedro Cardoso


sábado, 3 de abril de 2021

Poetrix: o Salto, o Susto e a Semântica, por de Goular Gomes


"...penso no poetrix perfeito como um pequeno projétil
que nos atinge direto num órgão vital" (Sara Fazib)

Há quem veja as artes minimalistas – entre elas, o Poetrix – como artes menores. Como se fosse possível medir o valor de todas as pedras preciosas por seus tamanhos. Um cristal grande vale menos que um pequeno diamante e mesmo dois diamantes de igual tamanho podem ser avaliados diferentemente. Existem poetrix que valem mais que extensos poemas como, também, muitos deles não precisariam terem sido escritos. Dentre os vários elementos que podem aumentar ou diminuir os "quilates" de um poetrix, eu gostaria de falar, neste artigo, sobre três deles: o Salto, o Susto e a Semântica.

A cena é recorrente, o cinema hollywoodiano dela usa e abusa: o herói (ou vilão) está em fuga. Em sua perseguição, o inimigo. Após inúmeras infrutíferas tentativas de escape, surge o obstáculo: um abismo, uma ponte quebrada, o teto de um edifício, uma estrada inacabada. O que fazer? Morrer ou morrer? O protagonista da cena escolhe o risco. “A possibilidade de arriscar é que nos faz homens”, segundo o poeta baiano Damário Dacruz. Salta... para a salvação. O mesmo acontece com alguns poetrix. Por ser um texto breve, isso não quer dizer que ele deva ser lido com brevidade. É preciso querer-se captar as suas nuances, as pequenas particularidades de cada palavra, desde o título e a cada verso. Ele também tem o seu ritmo e intensidade próprios, possibilitados pela livre distribuição das sílabas em cada linha, conquanto não venham a ultrapassar o máximo de trinta sílabas. Existem poetrix que encaminham-se lentamente para o seu final como quem irá desencarnar por morte natural e, de repente, o Salto! Observem como isso foi bem elaborado por Sara Fazib (SP) no poetrix CARA METADE:

melhor par não faria
eu e essa minha falta
de companhia

ou em SONSAS, de Lílian Maial:

Estrelas
não dizem a verdade.
Elas piscam.

e ainda em GRÁVIDA, de Pedro Cardoso (DF):

No corpo da menina
a barriga cresce
como uma boca faminta

O Salto, no poetrix, subverte. O texto dialoga consigo mesmo, opõe-se, contrapõe-se, quase nega-se e, nessa dialética, ressuscita.

LinguaJá, meu mais recente livro de poesias, tem como subtítulo "O Território Inimigo", numa alusão ao nosso idioma, campo minado no qual o escritor tem que saber pisar com artimanhas. Voltemos ao filme no exato momento do salto do nosso (anti)herói. Stop! Imagem congelada. Agora solte, devagar, como num filme de John Woo. O leitor/telespectador, nesse curto espaço de tempo, viverá a brevidade da expectativa, mesmo sabendo, de antemão, o que acontecerá: ou ele cairá são e salvo, do outro lado, ou se espatifará. Mas, se não acontecer nem uma coisa nem outra? Se, digamos, o personagem simplesmente desaparecer no ar, teletransportado por alguma Ciência ou Magia? Eis o Susto. Nem, sempre, porém, quem deseja assustar atinge o seu intento. Sempre existem aqueles que “já viram de tudo” e “não se impressionam com mais nada”. Como os koans zenbudistas, que para alguns podem ser instrumentos de iluminação e para outros meras historietas sem graça, a intensidade do Susto depende muito mais de quem o recebe do que de quem o proporciona. Com o Susto, o poetrixta pretende surpreender, ainda que nem sempre o consiga. Um dois poetrix que mais me “assustaram” chama-se HEROESIA, também de Sara Fazib (que transformou-se num belíssimo grafitrix ilustrado pela poetisa Silvana Guimarães, disponível em www.poetrix.org):

de joelhos, reverente
provo a Tua presença
sarça ardente

Outro bom exemplo é NOVA EDIÇÃO, de Andréa Abdala:

conto da carochinha,
mulher de verdade
não goza de mentirinha

Foi também o que intentei fazer com o poetrix PESSOIX, inspirado em poemas de Fernando Pessoa e Ferreira Gullar:

um terço de mim, delira
um terço de mim, pondera
outro terço, ah!, quem dera

Eu estava utilizando o exemplo da fuga no cinema hollywoodiano, onde uma fuga é apenas uma fuga, não há nada por trás dela, seja a pé, de moto, carro ou caminhão. Mas não podemos dizer o mesmo quando tratamos do cinema europeu, onde tudo pode não ser simplesmente o que aparenta. Nele, uma cena de fuga pode estar metaforicamente simbolizando uma perda ou busca de identidade, uma inadequação social, um estado psicológico... ou patológico. Uma fuga, como a outra, mas dentro de um novo contexto idealizado. O poeta Gilberto Gil, na letra da música METÁFORA diz que “uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’, pode estar querendo dizer o incontível.” Quando o poetrixta explora inteligentemente a riqueza semântica de algumas palavras, seja metaforizando, fazendo trocadilhos ou utilizando figuras de linguagem, o poetrix vai muito além das três linhas, ganhando uma vastidão de possibilidades. Quando Djalma Filho (BA), em LUSCO-FUSCO diz:

deitada,
quase apagada,
a noite armadilha

ele está fazendo isso. A palavra “armadilha” consegue deixar de ser um substantivo para tornar-se verbo, como suas sinônimas tocaia/tocaiar e emboscada/emboscar, permitindo outras (re)leituras do poetrix. A mesma coisa ocorre com estes dois poetrix meus, onde as palavras “mama”, “filho da mãe”, “presente” e “torres”, “rock”, “xeques”, “xadrez” permitem várias interpretações:

MAMA

aninho-me em teu ventre
filho da mãe
roubo-te o presente


TERRORISMO

as duas torres caem
nenhum rock, réquiem
xeques no xadrez

Poderão objetar: “sim, Goulart, isto tudo é muito singular; qualquer texto literário cresce quando conta com esses elementos” e eu “vos direi, no entanto”: para o poetrix, a menor (em tamanho) das linguagens poéticas, “crescer” é fundamental!

Machado de Assis, na apresentação do seu livro VÁRIAS HISTÓRIAS diz, com relação aos contos:

"O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos."

Isto é válido para o poetrix em relação à poesia, assim como o inverso também é verdadeiro: se tais elementos – Susto, Salto e Semântica – são importantes no texto longo, mas ainda o são no poetrix, onde não há tempo ou espaço para corrigir erros.

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(meus agradecimentos aos cúmplices: Ana Cristina Carvalho e Sara Fazib pelas "dicas" que contribuíram para a elaboração deste texto; a Damário Dacruz pela autorização para inclusão da sua citação e a Machado de Assis, por ser tão genial!)

Goulart Gomes
in: https://www.goulartgomes.com/visualizar.php?idt=409724

quarta-feira, 31 de março de 2021

A pitada e o ponto, por Aila Magalhães

Quem cozinha conhece o segredo de um bom poetrix.

Não há receita no mundo capaz de ensinar o tamanho certo da pitada, a exata intensidade da mexida no tacho, a precisão do tempinho a mais no fogo. É tudo decidido no olhar cheio de interesse, no cheiro que se espalha pela cozinha, na ponta da língua...

Quem nunca se maravilhou perante um prato, surpreendido na descoberta de um tempero tão sutil quanto imprescindível? Assim também ocorre com o poetrix. Um título, três versos e trinta sílabas? Não basta! Há que se acrescentar pitadas de amores e humores e se mexer com jeito para não desonerar o molho.

A poesia por um trix, por Aníbal Beça

Trace três versos triscando o toque do temporal mínimo oriental de um santo Bashô, que baixou na Baixa do Sapateiro para buscar no azeite de dendê e na pimenta malagueta seu cavalo-de-santo, temperado no mar da Bahia, Oropas, França e Japão.

Dormiu cem anos de solidão na rede latino-americana, na cesta das tormentas, entre a sesta dos excluídos e escolhidos, para dar o salto do canga-pé universal. Falo de um personagem criativo e criador que, como xará onomástico de ex-presidente deposto por golpe, atende e diz-se Goulart Gomes.

O cognato: use e abuse de aliterações, assonâncias, rimas, símiles, onomatopéias, metáforas, metonímias, e outras que tais do inferno gramatical, mas podem chamá-lo poetrix. Um pelo outro, mescla-se o troco, ganha-se em dobro de corda e caçamba bem amarradas. Goulart e poetrix, não se largam. São um só: pai, filho e espírito santo.

O verso é como remédio: três em um. E cura cotovelo de apaixonado, espinhela caída de donzela, males da cornucópia, bochicho de esquina de mal-dizer & bem-querer, desigualdades da cólera social. Tudo em drágeas de colorido humor, no senso exato, que não subestima, inteligente, transgressor et, por cause, libertário.

No palimpsesto do verso, o reverso que retorna às liças medievais pela boca soteropolitana-gregoriana: o canto da boca do paraíso e do inferno
tropicais, de mel e fel, na síntese da Nova Trova, nas palavras da tribo de hoje. Daqui e d'além mar.

Um fenômeno que tomou de assalto as caravelas de bucaneiros que navegam pelos mares sistêmicos-internâuticos. De fato e de direito, pelo mérito, já se faz história, como primeiro movimento universal saído dessa rede. Não há como deletar, Tem-se que engolir o gênio baiano.

Morasse Goulart em São Paulo, ele já seria alçado parelha ao movimento dos concretos, do qual não nega ser caudatário. Sucesso no Brasil é perigoso. E quando se espalha babel, as línguas de fogo mexem com zelos-celos de salieris de atalaia. O Tom Brasileiro, afinado, já descobrira: " É um insulto" .

Que seja um insulto. Mas um insulto que o mundo já adota como um soco
renovador acabará por nocautear os misoneístas renitentes É ver para crer.

Os neofóbicos que me perdoem, mas o novo é fundamental.

Não gostava, como diria um poetrixista português, de me debruçar sobre as "amargas". O instante é de festa, de comemorar na dança das palavras. Pois então saudemos esta antologia com as alvíssaras que ela carrega. Que a Boa Nova, desça aos infernos e ascenda aos céus, com a mesma manemolência que fez de Pastinha um mestre:

Sai da rasteira
do tombo no seu quilombo -
Ás da capoeira!
Aníbal Beça

Fonte: https://poetrix.net.br/


Poetrix: Uma proposta para o novo milênio, por Goulart Gomes

Em 1984 a Universidade de Harvard (USA), solicitou ao escritor e crítico Italo Calvino que elaborasse uma série de palestras a respeito das qualidades da escritura. Ao todo seriam seis palestras. Contudo, em 1985, este escritor nascido em Cuba, mas radicado na Itália, viria a falecer, deixando prontas apenas cinco palestras. Estas palestras foram reunidas em um livro publicado no Brasil pela Companhia das Letras, sob o título “Seis Propostas Para o Próximo Milênio”.

Com sua vasta cultura, Calvino discorre com bastante elegância e propriedade acerca destas “qualidades” - Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade - fazendo um rico passeio pela literatura universal, desde os clássicos até os escritores contemporâneos.