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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DES_A_FIO: Análise de Poetrix de José de Castro, por Dirce Carneiro


ANÁLISE DE POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO

Por Dirce Carneiro

Acadêmica, cadeira 26


DES_A_FIO


Não mais conto os dias 

Na brancura, os desfio 

Fio a fio, desafia-me a velhice


José de Castro


Primeiramente, salta aos olhos a construção do título. 

A desconstrução de uma palavra-verbo-substantivo (desafio) que lhe sobrepõe outros sentidos da palavra resultante: DES_A_FIO

Se desafio fica no não dito, nas entrelinhas, na construção com os underlines, a resultante, des – a – fio, com o prefixo [des] nos remetendo a algo que já não é, relativo a fio, com a sobreposição, ainda, de outro sentido, [a fio]. A fio, nos aproxima de fio por fio, um por um, e ainda, de [afio]: um sujeito afiado, decidido, com suas escolhas bem resolvidas.

Então temos, entre o dito e o não dito, a sobreposição dos sentidos: desafio, não olhar o que passou, o que já não é; fio por fio (um por um), afio (o sujeito com suas escolhas bem resolvidas).

Realmente, é um título bem instigante, que toca na representação visual da palavra e, também, no que ela representa no não dito, no emocional, na interpretação, nas entrelinhas, no que o leitor tem a descobrir.

No primeiro verso: 

Não mais conto os dias, o eu poético nos remete ao prefixo [des]. Ele descontrói o tempo, não vive do passado, sugerindo que só o presente importa. Mas...houve um tempo em que contar os dias importava: [Não mais conto os dias]. O calendário já não importa. Carpe diem, é a sugestão. Há uma época em que não podemos perder tempo e o passar dos dias nos aflige, tanta é a energia para gastar, compromissos a cumprir, desejos a realizar, medo e culpa de não dar conta, os outros e nós mesmos a cobrar. Isto tudo ficou para trás.

Segundo verso: 

Na brancura, os desfio, o eu poético nos coloca diante da dualidade, estaria se referindo a dias ou, quem sabe, a fios (de cabelo?), ou aos dois?

Na brancura: [1] no que ainda há de vir, no desconhecido do tempo; [2] na sabedoria do presente, amadurecido pela vida. [3] nos cabelos brancos; os desfio: tira-lhes o peso, torna-os mais leves. Pode ser tanto com relação aos dias vividos como à simbologia dos cabelos brancos. 

Terceiro verso: 

Fio a fio, desafia-me a velhice: finalmente, no terceiro verso, o eu poético condensa, traz à tona o sentido da composição, desde o título. Dia a dia, o tempo presente o desafia. Viver cada dia como se fosse único, de maneira leve, mas determinada.

Conclusão:

Através da sonoridade, de recursos visuais, do léxico, de metáforas, o poeta constrói um poetrix com várias camadas de sentidos e símbolos. Até a leitura do último verso e, também depois, ainda outros sentidos ficam a nos sugestionar, face à engenhosidade da concepção, arquitetura e realização do poema. Note-se certa circularidade, tanto no aspecto formal, quanto no aspecto semântico. O poetrix nos possibilita, também, a reflexão, neste caso, uma variação sobre o tema.

Como uma única leitura não esgota o sentido de um poema, pois não é uma equação matemática, concluo optando pelo sentido de que o poeta já não se aflige com o passar dos dias, mas vive-os no presente, Carpe diem, de maneira leve, mas tenaz, desafiado pelo conhecimento do caráter do tempo, esse ser invisível, que nos espreita e confronta, mas que pode ser desfiado, tornado leve, e assim, desafiado.

Dirce Carneiro

4 de setembro de 2026


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Eu e o Poetrix de Dirce Carneiro

 EU E O POETRIX 

(Dirce Carneiro 

Acadêmica AIP Cadeira 26) 

 

Porque atraiu-me, dedico-me e escrevo Poetrix? 

A proposta acenou-me como desafio.  

Num mundo da velocidade, em que, muitas vezes, a pressa anula o intervalo entre o enunciado da mensagem e o seu fim – o raciocínio, o Poetrix, para mim, se apresentou como forma poética a romper essa bolha de clips rápidos e alienantes. 

Já disse, em outras ocasiões, que o Poetrix une o clássico e o moderno-contemporâneo, contemplando uma das mais interessantes combinações culturais. 

Clássica, porque traz, na forma, fixa, a exigência de 30 sílabas poéticas no terceto, não se considerando o título nesta contagem. 

Moderno-contemporâneo, porque no seu conteúdo, livre, cabem todos os universos de assuntos que habitam a imaginação dos poetas. 

Assim, para meu estilo dissertativo, fui desafiada a sintetizar enunciados poéticos e visões de mundo, tendo a profundidade e a máxima poeticidade (possível a cada autor), como atributos capazes de impactar o leitor. 

Um, entre outros desafios, se apresenta neste fazer poetrixta: a independência dos versos. Muito já se falou sobre isso. Não me alongarei no básico da questão. 

Só menciono a tendência de se compor tercetos sem oração (sem verbo) como artifício para fugir do chamado fatiamento. 

Em debate, sempre frutífero, com um estudioso de Língua Portuguesa e outros idiomas, que justificava a ausência de verbos nos seus poemas, veio ao contexto a citação “No princípio era o verbo” 

Sim, disse-lhe eu: 

 - O verbo estava oculto, existia no conceito, como ideia, mas na hora de se comunicar, ele se “fez carne”, materializou-se, mostrou a face do que pairava sobre a criação: 

O criador do mundo queria se comunicar, mandar sua mensagem. 

O poetrixta quer se comunicar, numa mensagem de versos com enunciados completos. 

Sem engessamentos. Nada é absoluto. 

Às vezes, também nos comunicamos apenas com gestos, olhares, algo em suspenso e/ou secreto e até mesmo símbolos. 

Clássico-moderno-contemporâneo. É o Poetrix. Certinho na forma, ousado, atrevido, lírico, poético e imprevisível no conteúdo. Tudo o que um poeta pode ser com as palavras. 

____________ 

Dirce Carneiro 

Acadêmica AIP Cadeira 26 

Outubro/25 

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

MITOPOETRIX - Joaquim Dolz


 OS MITOPOETRIX DE XIMO 

Ximo Dolz (Prof. Joaquim Dolz*) 

 

Ximo não sabe nada ou muito pouco dos povos indígenas do Brasil. Escreve de longe como um jogo para aprender.  

Os povos indígenas do Brasil guardam, em suas línguas, rituais e mitos, uma das mais antigas formas de compreender o mundo. Cada ser, cada rio, cada árvore e cada espírito tem voz, tem presença e memória. As narrativas orais que atravessam gerações não são apenas histórias: são mapas de sabedoria, códigos éticos e formas de estar no mundo em profunda relação com a natureza. 

Este pequeno conjunto de poemas nasce do desejo de escutar essas vozes ancestrais, as vozes da floresta, e de transformá-las em linguagem poética, acessível, respeitosa e simbólica. Aqui se reúnem personagens míticos de diferentes etnias, como os Guarani, Tupinambá, Yanomami, Tukano, Kayapó e outros povos originários que resistem e recriam suas tradições em meio a desafios antigos e novos. 

Para escrever os Poetrix, teve que se documentar.  

Tupã, Maíra, Boiúna, Yebá Bëló, Omama… Cada nome carrega consigo uma força: a criação, o mistério, o equilíbrio, a cura, o desafio. Ao transformar esses mitos em versos, este trabalho não pretende “traduzi-los”, mas sim ecoar, com humildade e poesia, a sabedoria viva dos primeiros povos do Brasil. 

 Ximo Dolz 

(Prof. Joaquim Dolz - Universidade de Genebra - Suíça) 

 

 

 

 MITOPOETRIX INDÍGENA 

 

eco das vozes da floresta 

universo esquecido 

ser um com a natureza 

 


RIO AMAZONAS 

 

não só água ouço 

cantam mitos esquecidos 

memória nas curvas do tempo 

  

 

DEUS TUPà

 

é vento, é raio, é trovão 

vive sem viver em nós 

mistério em cada som 

  

 

YEBÁ BËLÓ 

 

experiência ancestral 

saber de vovó que tece o mundo 

fios de tempo ritual 

  

  

VOZES INDÍGENAS PERSISTEM 

 

Kuat brilhou o primeiro dia 

Jakaira soprou minha cura 

Karai acendeu meu verbo 

 

 

 

MITOPOETRIX FINAL 

 

o mito não passou, respira 

a floresta não dorme, escuta 

quero dançar a vida 

 

Ximo Dolz 


                                        ______________________________________

_*Ximo Dolz, nome poético do Professor Joaquim Dolz, pesquisador e professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra – Suíça. Professor de Didática de línguas e formação de professores. Codiretor, do Grupo de Pesquisa e Análise do Francês Língua Materna (GRAFE). Tem pesquisas sobre o Ensino de Línguas em contexto multilíngue; Didática de gêneros orais e escritos: Análise das interações didáticas e objetos de ensino e Formação de alunos em uma perspectiva didática. É autor de estudos diversos no assunto, entre os quais, seu livro, Gêneros Orais e Escritos na Escola, junto com Scheneuly, é um marco na área. Desde 2023 Ximo Dolz se interessou pela forma minimalista de Poesia, não só como objeto de pesquisa e estudo, mas também como praticante do Poetrix, forma usada para compor os poemas desta série. É membro do Grupo Selo Poetrix, a partir da data citada, onde aprendeu e agora até ensina e debate sobre este gênero textual criado no Brasil. Tem poemas publicados no Blog da Academia Internacional Poetrix – AIP. 

                                        _______________________________

Organização – revisão Dirce Carneiro

Cadeira 26 da Academia Internacional Poetrix