ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP
ENTREVISTA
COM O ACADÊMICO
XIMO
DOLZ – CADEIRA 30
Joaquim Dolz, professor honorário da Universidade de
Genebra, pesquisador do Poetrix e poeta sob o nome de Ximo Dolz, integra a
Academia Internacional Poetrix desde dezembro de 2025. Entre a didática das
línguas e a respiração breve do poema mínimo, constrói uma obra onde pensar e
sentir se entrelaçam com discrição e intensidade.
Biografia completa de Ximo Dolz e seu Discurso de posse estão disponíveis no blog da AIP.
Entrevista concedida a Dirce Carneiro
(acadêmica – cadeira 26)
Gestão Uni_Versos – 2026/2028
1) Onde nasceu? Que memórias guardam os seus primeiros
lugares?
2) Como a sua trajetória acadêmica atravessa a sua
escrita?
Há mais de quatro décadas habito a Universidade de
Genebra. Dediquei-me ao ensino e à aprendizagem das línguas, à didática do
francês, à formação de professores. A maior parte da minha obra é académica,
mas suspeito que também aí se esconde uma forma de escrita — uma atenção ao
detalhe, uma escuta do outro, uma arquitetura do sentido.
3) O que o plurilinguismo lhe ensinou?
Aprender línguas foi, antes de tudo, aprender a
deslocar-me. Ao falar um português imperfeito, compreendi melhor outras
culturas e, ao mesmo tempo, relativizei a minha. Descentrei-me. Abri-me. O
plurilinguismo não é apenas uma competência: é uma forma de estar no mundo.
Enriquece a sociabilidade, sim — mas também a maneira de pensar.
4) O olhar atento e o pensamento crítico: o que lhe ensinaram?
O olhar atento e o pensamento crítico ensinaram-me a
não aceitar o mundo como dado, mas como construção. A ver o invisível, a
interrogar o evidente, a escutar antes de julgar.
Olhar e pensar, afinal, são formas de
responsabilidade. A ética da discussão de Habermas é um caminho.
5) Há algo que ainda deseja aprender?
Tudo. Quanto mais estudei, mais consciência tenho do
que ignoro. Talvez seja esse o verdadeiro motor: saber que o saber nunca se
fecha.
6) Como chegou ao Poetrix?
Cheguei quase por acaso, pela mão de Paula Cobucci,
que investigava o gênero em Genebra. Entrei como observador e acabei por ficar,
como quem encontra uma casa inesperada. Desde 2022 escrevo Poetrix quase
diariamente.
7) Como nasce um Poetrix em si?
O Poetrix, para mim, é jogo e rigor. Um espaço
mínimo onde a linguagem se condensa. Procuro, com poucos elementos, criar uma
abertura: um enigma, uma vibração, uma pequena fratura no sentido. Escrevo sem
ambição, mas com alegria quando surge essa centelha: três versos, um título, e
de repente algo se expande.
8) A criação está entre dor e prazer?
Sim, ambos coexistem. A escrita foi também
terapêutica. Como dizia Octavio Paz, a poesia é um diálogo, e esse diálogo,
muitas vezes, é interior.
9) O que representa a Academia para si?
Uma partilha. Um compromisso com um projeto coletivo
iniciado por Goulart Gomes e continuado por vozes que admiro. Também um
desafio: atravessar momentos de fragilidade e transformá-los em construção
comum.
10) E a experiência nos grupos?
Rica, viva, por vezes tensa, como todo espaço de
criação. Há trocas, há aprendizagens, e há também diferenças. Eu próprio sei
que caminho com uma visão muito pessoal do Poetrix.
11) O Poetrix pode ser ensinado?
É essa a pergunta que me move. Com Paula Cobucci,
estudamos a evolução do gênero, as suas formas, as práticas nas plataformas.
Procuramos construir um modelo didático que permita explorar o seu potencial na
aprendizagem da língua e da criação literária.
12) E o seu papel na Academia?
Hoje participo na direção, mas o meu desejo é
simples: explorar o Poetrix como instrumento de aprendizagem, da língua, da
escuta, da sensibilidade.
13) O que pode a arte num mundo inquieto?
No meu caso, humaniza-me. Devolve-me ao essencial
quando tudo à volta parece disperso. A arte é uma forma de reencontro: comigo
mesmo, com os outros, com aquilo que ainda resiste ao ruído… é uma resistência
contra a guerra e a sem-razão, contra a ausência de lógica ou explicação
aparente do que o mundo está a viver.
Ela desacelera o tempo, cria um espaço de escuta e
de atenção, onde o sentido pode emergir sem pressa. Num mundo fragmentado e em
guerra, a arte recompõe, não resolve, mas ilumina. Permite nomear o indizível,
dar forma à inquietação, transformar a experiência em partilha.
Também me ensina a olhar: a ver o detalhe, o quase
invisível, aquilo que passa despercebido na pressa do quotidiano. E, nesse
gesto, há já uma ética habermassiana, uma maneira de estar mais atento, mais
disponível, mais humano.
A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o
habita. E talvez isso seja, hoje, uma das formas mais necessárias de
resistência.
14) Que livros, que caminhos de escrita o definem?
A biblioteca completa como diria Borges. E uma
perspectiva teórica o interacionismo sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart.
15) Há uma obra que gostaria de destacar?
Mas que obras autores: Ausias March, Joan
Salvat-Papasseit, Joan Brossa, Vicent Andrés Estellés por citar alguns poetas
da minha lingua primeira. Pessoa em português. Garcia Lorca e meu amigo José
Cereijo em espanhol. Tantos poetas e tantas obras… os sonetos de Borges.
16) O mundo acelera. Estamos a perder o equilíbrio?
HOJE
o mundo
acelera
o
equilíbrio não se perde
desaprende-se
17) Que vozes o acompanham, que autores o atravessam?
Na verdade, as minhas vozes interiores são polifônicas:
um concerto onde ressoam os meus ancestrais, as minhas leituras, a música que
me habita.
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AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028
Dirce Carneiro – acadêmica, cadeira 26




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