terça-feira, 12 de maio de 2026

Entrevista com o Acadêmico Paulo Soroka

ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP

ENTREVISTA COM O ACADÊMICO PAULO SOROKA– CADEIRA 33

 A travessia de Paulo Soroka: entre sombras e luz, a leveza conquistada


Paulo Soroka, académico nº 33 da AIP, patrono Thiago de Mello, amazônida de palavras e rios. Eleito na última fornada de novos académicos, em dezembro de 2025, surge com um sorriso que carrega o brilho da sua cidade natal, Porto Alegre: luz que atravessa o olhar e anuncia encontros entre a palavra e o silêncio.

Entre a clínica e a poesia, Soroka caminha delicadamente: médico psiquiatra, formado em psicanálise, poeta que escuta o eco do invisível. Membro ativo da Confraria Ciranda Poetrix, participou de várias coletâneas, alternando o rigor da palavra escolhida com a pausa do silêncio, encontrando na simplicidade minimalista a grandeza da expressão.


Um poema por dia para fazer a travessia é o título de um dos três livros que escreveu durante a pandemia. Pode nos falar dessa travessia? Como cada dia, cada verso, se tornou ponte entre o peso e a leveza da palavra?


A travessia foi, antes de tudo, um movimento interno. O mundo havia se recolhido e, nesse súbito silêncio, as palavras começaram a respirar de uma forma distinta. Incertezas amanheciam a cada dia, e a escrita poética surgiu como gesto mínimo de permanência. Escrever era como acender uma pequena luz no quarto escuro do tempo, iluminando cantos e recantos.

O verso tornou-se uma ponte. Havia temor e ausência, mas as palavras abriam frestas e traziam a leveza possível. Não era uma leveza descuidada, mas sim conquistada, como quem atravessa um rio pisando em pedras invisíveis.

Assim, um poema a cada dia surgiu essencialmente como necessidade, como gesto de resistência.

 

«A luz nasce no instante em descobrimos que somos mais que a nossa sombra.» Esta frase de Rabindranath Tagore guiou o seu discurso de posse. Que sombra precisou reconhecer, e que luz se acendeu ao escolher esse farol para o seu caminho?

Creio que a sombra que precisei reconhecer foi a da vulnerabilidade, como dolorosa experiência vivida. A sombra é também a dos próprios limites: da palavra, do corpo, do tempo. Entretanto, é nesse reconhecimento que algo se ilumina: a sombra não é apenas negação. A sombra  é um contorno que revela mais do que a gente espera. Ao aceitar a sua existência, a palavra torna-se um potente farol. A luz que se acende é a de um saber que, mesmo frágil, permite a descoberta de sentidos e, talvez, o compartilhamento de silêncios — é assim que a experiência se transforma em gesto poético.

 

O senhor reivindica-se como cidadão de Porto Alegre, cidade de Mário Quintana, de Elis Regina, de ruas e cantos que sussurram versos. Como ecoam, em suas palavras, as memórias e paisagens da sua cidade natal?

Porto Alegre vive em mim como contorno afetivo. Não é apenas uma cidade, mas um mosaico de sopros: o vento que passeia pelas ruas, o horizonte aberto do Guaíba, a luz que se dissolve no entardecer. Essas imagens nem sempre   aparecem de forma direta nos meus versos, mas permanecem como ritmo, como respiração interior. Como moldura.

Há também ecos de uma tradição sensível. Em Mário Quintana, aprendi a profundidade daquilo que é simples; em Elis Regina, a intensidade que transborda emoção. Ambos, à sua maneira, mostram que a simplicidade pode tangenciar o infinito.

Minhas palavras estão impregnadas de algo dessas paisagens: uma melancolia discreta, um sutil olhar sobre o cotidiano, uma escuta do que é mínimo.

 

Que lugares guardam a memória da juventude que pulsa, dos primeiros encantos e dos primeiros versos?

Os lugares da juventude não se restringem ao aspecto físico.  Acredito que tais  lugares são, sobretudo, espaços internos. Ainda assim, algumas paisagens permanecem como pontos de ancoragem da memória: ruas percorridas sem urgência, bibliotecas silenciosas, praças onde o tempo parecia mais dilatado.

Recordo também os lugares de escuta — salas de aula, encontros informais, conversas que se estendiam sem propósito definido. Ali, os primeiros versos surgiam quase como confidências, tentativas de nomear aquilo que ainda não sabia dizer plenamente. A juventude pulsa nessas experiências iniciais, feitas de intensidade e de inocência diante do mistério da vida.

 

Como descobriu o Poetrix e o que o fascinou nesse diálogo entre silêncio e palavra mínima?

Descobri o Poetrix como quem encontra uma forma já suspeitada. Havia, em mim, uma inclinação para o essencial, para a palavra depurada. O Poetrix surgiu como um espaço onde o silêncio não é ausência, mas matéria do poema. Foi um reconhecimento imediato: ali, o mínimo não significa redução, e sim potência.

A prática cotidiana da psicanálise ensinou-me que o silêncio e a palavra têm seu exato momento para acontecer. O que me fascinou no Poetrix foi justamente a tensão entre dizer e calar. No Poetrix, cada palavra precisa justificar sua presença, e aquilo que não é dito passa a vibrar ao redor do verso, demarcando sua presença. O poema não se impõe; ele se insinua.

 

Sua trajetória de escrita precede o Poetrix. Pode nos contar o itinerário poético que o trouxe até aqui? Quais autores, quais ecos, quais sopros de leitura marcaram a sua escrita?


Creio que  minha trajetória poética nasceu como necessidade imperiosa de dar contorno à experiência. Recordo que, no início, a escrita era mais extensa, como se eu ainda precisasse atravessar muitas palavras para alcançar um sentido.  Com o tempo, esse movimento foi se depurando, e percebi que o essencial muitas vezes se esconde no intervalo, nas entrelinhas, no não dito.

Algumas leituras foram essenciais nesse percurso. Em Jorge Luis Borges, encontrei a ideia de que somos feitos de espelhos e fragmentos; em Mário Quintana, a delicadeza do cotidiano transformado em poesia. Essas inspirações foram se entrelaçando, não como influências diretas, mas como ecos interiores.

Também havia sopros vindos de outros locais — em especial da psicanálise — que me ensinaram a valorizar o intervalo e a ambiguidade. A escrita passou, então, a buscar menos a afirmação e mais a possível aproximação de sentidos.

 

Psiquiatra e psicanalista, sentimos curiosidade sobre a sua visão: a escrita poética pode ser, de algum modo, também terapêutica?

Creio que a escrita poética pode ter um efeito terapêutico, mas não no sentido de uma técnica ou de um método. A poesia não cura de forma direta; ela abre espaço. Possibilita respiros. Ao escrever, algo da experiência encontra uma forma simbólica, e aquilo que é, até então, difuso,  indizível, começa a ganhar contorno.

Sigmund Freud mostrou que a palavra tem um poder transformador quando permite elaborar afetos e dar destino ao que estava recalcado ou sem inscrição simbólica. A poesia, porém, opera de modo singular: ela não explica, não interpreta — ela desloca, cria ressonâncias. Nesse movimento, algo se reorganiza internamente.

 

Que pensa do movimento minimalista? Como percebe seu legado, sua força e sua capacidade de transformar o olhar sobre a linguagem?

Vejo o movimento minimalista como um convite à escuta do essencial. Em um tempo marcado pelo excesso de imagens e de palavras, e pela velocidade da comunicação, o minimalismo recoloca a linguagem em um estado de atenção. Ele nos lembra que o poema não precisa ocupar muito espaço para criar profundidade; basta que cada palavra seja carregada de presença.

O movimento minimalista não é apenas uma estética, mas uma atitude diante da palavra. Ele nos ensina que, às vezes, o essencial acontece no intervalo — e que o silêncio, longe de ser vazio, é parte viva do poema.

 

Como descreveria o seu próprio processo criativo? Onde se encontra o êxtase da inspiração, e onde surgem os tropeços e os recuos?

Meu processo criativo nasce, quase sempre, da observação e da escuta. Não de algo grandioso, mas de um detalhe: uma imagem, uma palavra, um instante que se destaca do fluxo cotidiano — ou de uma intuição. O êxtase da inspiração não é explosivo; é discreto. Surge por ondas. Ele acontece quando percebo que algo necessita ser dito e ainda não encontrou forma. Nesse momento, a escrita surge como aproximação, como tentativa de tocar o indizível.

Mas há também tropeços. Muitas vezes, o verso inicial não sustenta o que prometia, ou a palavra escolhida pesa mais do que ilumina. Então vem o recuo, que não é desistência, mas maturação. Deixo o poema repousar, permitindo que o silêncio trabalhe. Aprendi que forçar a escrita empobrece o poema; é preciso aceitar o tempo interno do texto — e, às vezes, o seu silêncio.

A escrita minimalista faz lembrar o trabalho do escultor, que retira os excessos de um bloco de pedra até alcançar o que existe ali oculto.

 

O que representa para si a AIP? Que projetos sonha implementar, que sementes deseja plantar na Academia?

A AIP representa, para mim, um espaço de encontro entre vozes diversas que partilham o compromisso com a palavra. Vejo a Academia não como território vivo, pulsante, onde tradição e renovação podem dialogar. É uma casa simbólica, construída por muitos, e que precisa permanecer aberta ao tempo presente.

Os projetos que imagino nascem dessa ideia de circulação. Gostaria de incentivar pontes entre gerações, aproximando poetas experientes e novos autores, criando espaços de escuta e partilha. Penso também em ampliar o diálogo com outras linguagens — a música, a imagem, a reflexão crítica — permitindo que a poesia se expanda sem perder sua essência.

As sementes que desejo plantar são, sobretudo, de continuidade e abertura. Continuidade, no respeito ao legado já construído; abertura, na acolhida do novo, do experimental, do minimalista, do que ainda procura forma.

Acredito que uma Academia se fortalece quando consegue ser memória e, ao mesmo tempo, horizonte.

 

Tem um grande patrono, o poeta Thiago de Mello. Que tipo de ligação sente com ele, e de que maneira sua obra o acompanha ou inspira?

Sinto ter com Thiago de Mello uma grande identificação: há, em sua obra, uma ética da palavra que sempre me tocou profundamente. A poesia surge como gesto de humanidade, como defesa da dignidade e como afirmação da esperança, mesmo em tempos adversos. Essa dimensão confere à sua escrita uma força que é, ao mesmo tempo, lírica e comprometida.

O que mais me inspira é a capacidade que ele teve de unir simplicidade e profundidade. Seus versos não se impõem pela complexidade, mas pela clareza que nasce da experiência vivida e partilhada. Há neles uma confiança na palavra como ponte entre o íntimo e o coletivo, entre o sofrimento e a possibilidade de transformação.

 

Para terminar: como percebe a articulação entre arte e vida, entre poesia e experiência interior, entre o silêncio e a palavra que nos transforma?

Arte e vida não se encaixam como espelho. A arte não é a vida traduzida, nem a vida é matéria bruta simplesmente “expressa” pela arte. Entre ambas há um intervalo — um desvio. É nesse desvio que algo se transforma. O vivido, quando passa pela linguagem, deixa de ser apenas vivencia: é reorganizado, recortado, às vezes até traído. Mas é nessa “traição” que ela ganha forma e, paradoxalmente, verdade. Assim surge a experiência.

A arte, então, é uma operação sobre o real. Ela não diz simplesmente o que sentimos; ela instaura um modo novo de sentir aquilo que, antes, era informe. O que era difuso, silencioso, quase impensável, encontra uma borda — e, assim, começa a se tornar habitável.


AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028

Ximo Dolz – acadêmico. cadeira 30

Poetrix de Sandra Boveto


 

SEGUNDO DOMINGO DE MAIO


Mais saudades a cada ano

Ânsia de colo

Estendo o afeto


Sandra Boveto


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Deixando o ninho: Homenagem ao Poeta Lorenzo Ferrari

 


As despedidas são sempre dolorosas. Com a ajuda do Tempo, a dor lentamente se converte em saudade... Aqui, ofertamos de maneira gentil e amorosa, uma homenagem ao poeta Lorenzo Ferrari: esposo, irmão, amigo, sonhador e, entre tantos outros adjetivos, poetrixta. 


O silêncio da AIP o incomodava. Ele precisava falar. A voz sempre presente, como agora, mesmo ausente. Ele ainda fala. Nos poemas… serão poetrix? Sim, são Poetrix. Para ele, sobre ele. O poema minimalista a dominar um homem grande. Desafiando o engenheiro que se fez poeta. 

Um tema recorrente eram as galáxias, o infinito. Ou as sinestesias sensoriais. Seus versos sempre contêm uma definição de alguma coisa ou de si mesmo.

O mundo não podia ter segredos. Tudo precisava ser previsto. Talvez por isso – o regimento. O Universo minuciosamente controlado, calculado.

Se segredos há, agora ele vai descobrir. E vai definir, vai pesquisar suas leis e vai poetizar, será poetrix.

Agora, um Poetrix Nobel. (...)

Dirce Carneiro



sábado, 2 de maio de 2026

Cinco Poetrix de Dirce Carneiro


 

PONTE ESTENDIDA

A Lorenzo Ferrari


Partiu o poeta

Encontro nos versos

Liame perene


Dirce Carneiro




NA OUTRA MARGEM


Ele nos observa

A voz ainda ressoa

Panteão busca o infinito


Dirce Carneiro




QUASE FIM DE ESTAÇÃO


Foi um abril atípico

Outono traz sinestesias

Quedo-me a perscrutar


Dirce Carneiro




DIRETOR INVISÍVEL


Palavras não dizem tudo

São muitos cenários

Personas movem-se no palco


Dirce Carneiro




PENSANDO COM O BIGODE


Entre a fala e a prática, abismo

Ser humano é indefinível

Faço cara de Dali


Dirce Carneiro

Dois Poetrix de Saulo Pessato


 

TURBULÊNCIA


Susto no ar jóquei do aço

o refugo, o salto, a aeromoça amansa

seu rabo de cavalo apenas balança


Saulo Pessato




RENOMEIO


Escalada a Ponte dos Suicidas

Que vista maravilhosa!

Paro, mudo... os meus planos.


Saulo Pessato

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista com Rita Queiroz

ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX

ENTREVISTA COM RITA QUEIROZ

CADEIRA 3


RITA QUEIROZ, O LIRISMO COMO META

 

Rita Queiroz, filha de Salvador, soteropolitana de corpo e mar, poeta nascida nessa cidade mítica onde o Atlântico bate como um coração antigo. Terra de histórias e encantos, do Capitão da Areia e de tantas canções que se derramam pelas ladeiras, entre o sal do vento e o riso do povo. Nela, Rita bebe essa luz quente e mestiça e escreve como quem conhece o segredo das marés, com a alma aberta, livre e cheia de vida. Professora universitária e especialista em filologia, desde 2019 frequenta o Poetrix com um lirismo singular feminino e feminista na Confraria da Ciranda Poetrix e, desde dezembro de 2025 ocupa a cadeira 3 da nossa Academia Internacional Poetrix. Clique aqui para acessar a biografia completa da autora. 

 

Rita, é impossível começar sem evocar tua cidade mítica, Salvador. De que modo esse mar, essas ladeiras e essa memória viva respiram dentro da tua poesia?

Salvador é uma poesia a céu aberto. Onde quer que vá, respiro poesia. Minhas vivências, minhas memórias, meus afetos perpassam pela cidade. Minha infância, minha adolescência, minha vida adulta se encontram na minha escrita. E o mar, com seus mistérios e encantos, sempre me fascinou e me proporcionou mergulhar em mim mesma e assim poder me revelar, ora como água rasa, ora como água profunda.

 


Conheci, noutra vida, Jorge Amado no coração do Pelourinho. E tu mergulhaste no seu léxico. Que marcas dele habitam tua escrita? E que outras vozes de grandes autores te acompanham?

Quando estudante do curso de Letras, tive a oportunidade de conhecer o Jorge Amado. Estive presente nas comemorações dos seus 80 anos. Desde menina que a obra de Jorge Amado tem impacto na minha vida. Viver, através da escrita dele, a saga do cacau, a luta pelo reconhecimento da cultura afro-brasileira, a defesa do povo de santo, o protagonismo feminino reverberaram na minha formação intelectual. Estudar suas obras a partir do vocabulário popular foi uma experiência que me remeteu à minha infância, quando ia para a casa de meus avós na zona rural e ouvia as pessoas falarem daquele jeito que ele escrevia. Além de Jorge Amado, poetas como Cecília Meireles e Vinícius de Moraes marcaram minha produção.

 

Em que paisagens nasceram teus primeiros versos, foram ruas, mares, silêncios ou ausências?

Ausências, de quem se foi através das águas, sejam estas doces ou salgadas.

 

Teu destino parece entrelaçado à palavra… Como se deu o teu encontro com o Poetrix e que horizontes ele abriu na tua criação?


Sim, a palavra é o meu combustível. A escrita minimalista sempre fez parte da minha trajetória, mesmo não conhecendo o Poetrix, do qual só tomei conhecimento em 2019, quando participei do Encontro do Mulherio das Letras em Natal, no Rio Grande do Norte. Durante o evento, a Luciene Avanzini me convidou para uma oficina ministrada pela Aila Magalhães. Depois disso, ela me chamou para fazer parte do grupo Ciranda Poetrix, no qual conheci muita gente e pude desenvolver melhor a minha escrita minimalista. Assim, tenho participações em algumas antologias da AIP, de todas da Ciranda Poetrix, além de dois livros solo de Poetrix e um com 1/3 de Poetrix, o “Mínima Poesia”, o qual ficou em segundo lugar no concurso da AIP.

 

Como professora que orienta novos olhares, que leitura nos ofereces do Poetrix e das suas possibilidades mais sutis?

 Atualmente estou aposentada das atividades em sala de aula. Quando estava na ativa, atuava na área da filologia, não trabalhando especificamente com texto literário. No entanto, tenho ministrado oficinas de criação literária nas quais falo da poesia minimalista, como o Poetrix. Tanto a leitura quanto a produção de Poetrix favorecem a interpretação nas entrelinhas. Sendo um texto que comporta um título e três versos, os quais devem somar apenas 30 sílabas, instiga a imaginação, a concisão e a precisão. Para qualquer pessoa que escreve, isso leva à lapidação desse texto, buscando usar as palavras de forma que haja um impacto na leitura do Poetrix.

 


Como dialogam, em ti, a investigação acadêmica e o gesto íntimo de escrever poesia?

Minha investigação acadêmica não dialoga, diretamente, com minha produção poética. Embora haja uma influência discreta, pois ser do mundo das Letras nos permite conexões diversas. Passado e presente se misturam e temas investigados por mim, como a violência contra mulheres, se fazem ecoar em minha produção, seja esta em versos ou em prosa. Ler autores canônicos e os contemporâneos têm me ajudado a escrever melhor, não só a poesia minimalista como textos diversos.

 

Tendo Olga Savary como patrona, que ressonâncias encontras na tua obra de poeta e contista nordestina?

A literatura de Olga Savary pulsa feminismo. Desse modo, ressoam nossas obras.

 

O que é o Poetrix para ti? Como se acende, no teu íntimo, o instante da criação?

O Poetrix é para mim um sopro, um alento, um golpe profundo. O Poetrix evoca muitas sensações e muitos sentidos. Há Poetrix que nos deixam sem ar, como se tivéssemos recebido um soco no estômago. Há outros que nos deixam em êxtase e outros que nos fazem acalmar a alma. O que escrevo é mais lírico. Então ele surge da mesma forma como escrevo outros textos, apenas com o diferencial que devo ser mais sucinta, deixar os sentidos nas entrelinhas.

 

Teu lirismo, tão singular e reconhecido, como o nomearias, se tivesses de lhe dar um rosto?

Seria um rosto em braille, aberto a inúmeras leituras, seja através do tato ou da decifração dos seus caracteres plurissignificativos.

 

Poderias partilhar um dos teus Poetrix e abrir-nos a porta do seu sentido?

 

MANHÃS DE SOL

 

Bem-te-vis despertam sonolentos

Visto-me de esperanças vivas

Acasos mudam destinos

 

Rita Queiroz

 

Deixo que vocês leiam-me e digam quais sentidos foram despertados.

 

Como nova acadêmica da AIP, que caminhos desejas semear com a tua voz?

Desejo sempre semear, onde quer que esteja, a poesia, plena de amor, esperanças, a fim de que possamos transformar esse mundo caótico.

 


Mulher e poeta, como percebes hoje a escrita como espaço de afirmação e travessia feminina?

Comecei a escrever e a publicar com mais produtividade a partir de 2015. Lancei-me primeiro nas redes sociais. Nesse espaço, encontrei ex-alunos e ex-alunas que me incentivaram a seguir. Assim, ex-alunas que atuam na docência na área da literatura, me propuseram uma discussão acerca da autoria feminina. Desse modo, surgiu o coletivo que coordeno: a Confraria Poética Feminina. Formado por mulheres, desde 2016, já publicamos 10 coletâneas e duas agendas poéticas, além de termos levado nossas vozes a dezenas de eventos literários no Brasil e no exterior. Com esse coletivo, damos vez e voz para outras mulheres que se reconhecem na nossa escrita. Nesses 10 anos de existência, outros coletivos surgiram e vimos a força feminina presente em várias áreas. Transformamos silêncios em ecos, reverberados na poesia, na prosa, nos textos para as infâncias, na música e nas artes de um modo geral.

 

Para terminar: onde se encontram, para ti, a relação entre a arte e a vida?

Em tudo. Não há como separar a arte e a vida, pois elas se complementam. Não há fronteiras.

 


 

Academia Internacional Poetrix

Gestão Uni-Versos (2026-2028)

Entrevista por Ximo Dolz

Acadêmico cadeira 30

As imagens pertencem ao acervo particular da autora. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Quatro Poetrix de Ximo Dolz



ENSINAR LÍNGUAS


acender fogo na boca

vozes no limiar 

brasa que queima e cala  


Ximo Dolz



BILÍNGUES FORÇADOS


uma língua sonha dentro da outra    

a outra escreve com olhos fechados   

o futuro treme


Ximo Dolz



URDIR A LÍNGUA


falam com ele, sim

não tece por dentro

o nó aprende a sonhar  


Ximo Dolz



MESTRE   


não dá luz

acende caminhos no outro

sabe retirar-se


Ximo Dolz 

Quatro Poetrix de José de Castro


 

O PODER DAS ÁGUAS 


Já fui rio

Hoje, sou mar  

Lágrimas me navegam


José de Castro



O PODER DO SONHO 


Delírio de olhos abertos

Outros mundos, reinvento 

A vida pode ser maior


José de Castro



O PODER DA CANÇÃO   


Tua melodia ecoa no ar 

Timbres de ternura 

Clave de amor maior 


José de Castro



O PODER DA FILOSOFIA


Platônico amor 

Sartreana existência 

Freudiana_mente tudo explico


José de Castro

Dois Poetrix de Saulo Pessato


 

RUMORES VOAM


Pegada de terra deixada suja

o entorno do buraco da Coruja

fofocas no bairro do João-de-Barro


Saulo Pessato




JULGAMENTO NA JUDEIA


Benjamin com beijo falso

Pôncio Pilatos, Netanyaho 

Liberta Hitler e o Cristo condena...


Saulo Pessato

Quatro Poetrix de Cleusa Piovesan


 

TRISTE ESTIO 


Não vieram as "águas de março"

promessa que o céu não cumpriu 

vida "à espera de um milagre"



MUNDO SEM CONSERTO


Andorinhas voam sem rumo

laranjeiras não têm sinfonia 

concerto diário perdeu o maestro 



"O INFERNO SÃO OS OUTROS" 


Não governo minhas vontades 

há mãos de outrem em meu destino 

ah, se eu não fosse racional...



EXTERIORIDADES


Livre arbítrio é ilusão 

somos marionetes da mídia 

vivemos (des)governados


Cleusa Piovesan