quinta-feira, 23 de abril de 2026

Quatro Poetrix de Ximo Dolz



ENSINAR LÍNGUAS


acender fogo na boca

vozes no limiar 

brasa que queima e cala  


Ximo Dolz



BILÍNGUES FORÇADOS


uma língua sonha dentro da outra    

a outra escreve com olhos fechados   

o futuro treme


Ximo Dolz



URDIR A LÍNGUA


falam com ele, sim

não tece por dentro

o nó aprende a sonhar  


Ximo Dolz



MESTRE   


não dá luz

acende caminhos no outro

sabe retirar-se


Ximo Dolz 

Quatro Poetrix de José de Castro


 

O PODER DAS ÁGUAS 


Já fui rio

Hoje, sou mar  

Lágrimas me navegam


José de Castro



O PODER DO SONHO 


Delírio de olhos abertos

Outros mundos, reinvento 

A vida pode ser maior


José de Castro



O PODER DA CANÇÃO   


Tua melodia ecoa no ar 

Timbres de ternura 

Clave de amor maior 


José de Castro



O PODER DA FILOSOFIA


Platônico amor 

Sartreana existência 

Freudiana_mente tudo explico


José de Castro

Dois Poetrix de Saulo Pessato


 

RUMORES VOAM


Pegada de terra deixada suja

o entorno do buraco da Coruja

fofocas no bairro do João-de-Barro


Saulo Pessato




JULGAMENTO NA JUDEIA


Benjamin com beijo falso

Pôncio Pilatos, Netanyaho 

Liberta Hitler e o Cristo condena...


Saulo Pessato

Quatro Poetrix de Cleusa Piovesan


 

TRISTE ESTIO 


Não vieram as "águas de março"

promessa que o céu não cumpriu 

vida "à espera de um milagre"



MUNDO SEM CONSERTO


Andorinhas voam sem rumo

laranjeiras não têm sinfonia 

concerto diário perdeu o maestro 



"O INFERNO SÃO OS OUTROS" 


Não governo minhas vontades 

há mãos de outrem em meu destino 

ah, se eu não fosse racional...



EXTERIORIDADES


Livre arbítrio é ilusão 

somos marionetes da mídia 

vivemos (des)governados


Cleusa Piovesan

Três Poetrix de Rita Queiroz


 

INTROSPECÇÃO 


Amanheço em ondas azuis 

Paz faz morada nos olhos 

Corpo levita sem freios 


ABISMOS SUSSURRANTES 


Ventos embriagam-me de ausências

Peito rasga-se em sussurros 

Vazio aporta-me 


LABIRÍNTICAS MEMÓRIAS 


Sangram saudades infindas 

Eternas vidas se refazem 

Silencio-me no ocaso 


Rita Queiroz

Três Poetrix de Marcelo Marques



CONFLUENTES EXISTÊNCIAS 


Vidas seguem paralelas

Rotas se cruzam na jornada...

Destinos diferentes tão iguais


Marcelo Marques



HUMANOS INSTINTOS 


Incontroláveis anormais 

Adestradas mentes sufocadas 

Sobrevivência em constante extinção


Marcelo Marques



MARCAS 


Feridas que machucaram 

Cicatrizes permanecem...

Sempre há dor a ser lembrada


Marcelo Marques

sábado, 18 de abril de 2026

Nota de Pesar

 


É com grande tristeza que a Academia Internacional de Poetrix comunica o falecimento, no dia 18 de abril, do seu membro Lorenzo Ferrari, poeta sutil e comprometido, e membro ativo da nossa Academia. Encontramo-nos em luto.

A Academia deseja transmitir à família e aos amigos de Lorenzo as suas mais sentidas condolências, bem como a sua mais profunda solidariedade neste momento de dor. 

Os Poetrix de Lorenzo permanecerão para sempre como testemunho do seu pensamento profundo e da arte sensível que soube transmitir, deixando uma marca viva no nosso percurso comum.

domingo, 12 de abril de 2026

Entrevista com Ximo Dolz

 ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP

ENTREVISTA COM O ACADÊMICO

XIMO DOLZ – CADEIRA 30

 

 

Joaquim Dolz, professor honorário da Universidade de Genebra, pesquisador do Poetrix e poeta sob o nome de Ximo Dolz, integra a Academia Internacional Poetrix desde dezembro de 2025. Entre a didática das línguas e a respiração breve do poema mínimo, constrói uma obra onde pensar e sentir se entrelaçam com discrição e intensidade. 

Biografia completa de Ximo Dolz e seu Discurso de posse estão disponíveis no blog da AIP. 

Entrevista concedida a Dirce Carneiro

(acadêmica – cadeira 26)

Gestão Uni_Versos – 2026/2028

 


 

1) Onde nasceu? Que memórias guardam os seus primeiros lugares?


Nasci em Morella, pequena cidade medieval do País de València — o meu Macondo íntimo. As muralhas, o castelo, as ruas estreitas: tudo isso moldou não apenas a minha infância, mas também a minha imaginação. Muito cedo comecei a escrever e a recitar, como se a palavra já me tivesse escolhido. A minha língua primeira é o catalão, e nela permanece um compromisso profundo: o de cuidar de uma língua que resiste há séculos. Escrevo noutras línguas — francês, português, espanhol —, mas é no catalão que o mundo me soa mais verdadeiro.

 

2) Como a sua trajetória acadêmica atravessa a sua escrita?

Há mais de quatro décadas habito a Universidade de Genebra. Dediquei-me ao ensino e à aprendizagem das línguas, à didática do francês, à formação de professores. A maior parte da minha obra é académica, mas suspeito que também aí se esconde uma forma de escrita — uma atenção ao detalhe, uma escuta do outro, uma arquitetura do sentido.

 

3) O que o plurilinguismo lhe ensinou?

Aprender línguas foi, antes de tudo, aprender a deslocar-me. Ao falar um português imperfeito, compreendi melhor outras culturas e, ao mesmo tempo, relativizei a minha. Descentrei-me. Abri-me. O plurilinguismo não é apenas uma competência: é uma forma de estar no mundo. Enriquece a sociabilidade, sim — mas também a maneira de pensar.

 

4) O olhar atento e o pensamento crítico: o que lhe ensinaram?


O olhar atento e o pensamento crítico ensinaram-me a não aceitar o mundo como dado, mas como construção. A ver o invisível, a interrogar o evidente, a escutar antes de julgar.

Olhar e pensar, afinal, são formas de responsabilidade. A ética da discussão de Habermas é um caminho.

 

5) Há algo que ainda deseja aprender?

Tudo. Quanto mais estudei, mais consciência tenho do que ignoro. Talvez seja esse o verdadeiro motor: saber que o saber nunca se fecha.

 

6) Como chegou ao Poetrix?

Cheguei quase por acaso, pela mão de Paula Cobucci, que investigava o gênero em Genebra. Entrei como observador e acabei por ficar, como quem encontra uma casa inesperada. Desde 2022 escrevo Poetrix quase diariamente.

 

7) Como nasce um Poetrix em si?

O Poetrix, para mim, é jogo e rigor. Um espaço mínimo onde a linguagem se condensa. Procuro, com poucos elementos, criar uma abertura: um enigma, uma vibração, uma pequena fratura no sentido. Escrevo sem ambição, mas com alegria quando surge essa centelha: três versos, um título, e de repente algo se expande.

 

8) A criação está entre dor e prazer?

Sim, ambos coexistem. A escrita foi também terapêutica. Como dizia Octavio Paz, a poesia é um diálogo, e esse diálogo, muitas vezes, é interior.

 

9) O que representa a Academia para si?

Uma partilha. Um compromisso com um projeto coletivo iniciado por Goulart Gomes e continuado por vozes que admiro. Também um desafio: atravessar momentos de fragilidade e transformá-los em construção comum.

 

10) E a experiência nos grupos?

Rica, viva, por vezes tensa, como todo espaço de criação. Há trocas, há aprendizagens, e há também diferenças. Eu próprio sei que caminho com uma visão muito pessoal do Poetrix.

 

11) O Poetrix pode ser ensinado?

É essa a pergunta que me move. Com Paula Cobucci, estudamos a evolução do gênero, as suas formas, as práticas nas plataformas. Procuramos construir um modelo didático que permita explorar o seu potencial na aprendizagem da língua e da criação literária.

 

12) E o seu papel na Academia?

Hoje participo na direção, mas o meu desejo é simples: explorar o Poetrix como instrumento de aprendizagem, da língua, da escuta, da sensibilidade.

 


13) O que pode a arte num mundo inquieto?

No meu caso, humaniza-me. Devolve-me ao essencial quando tudo à volta parece disperso. A arte é uma forma de reencontro: comigo mesmo, com os outros, com aquilo que ainda resiste ao ruído… é uma resistência contra a guerra e a sem-razão, contra a ausência de lógica ou explicação aparente do que o mundo está a viver.

Ela desacelera o tempo, cria um espaço de escuta e de atenção, onde o sentido pode emergir sem pressa. Num mundo fragmentado e em guerra, a arte recompõe, não resolve, mas ilumina. Permite nomear o indizível, dar forma à inquietação, transformar a experiência em partilha.

Também me ensina a olhar: a ver o detalhe, o quase invisível, aquilo que passa despercebido na pressa do quotidiano. E, nesse gesto, há já uma ética habermassiana, uma maneira de estar mais atento, mais disponível, mais humano.

A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o habita. E talvez isso seja, hoje, uma das formas mais necessárias de resistência.

 

14) Que livros, que caminhos de escrita o definem?

A biblioteca completa como diria Borges. E uma perspectiva teórica o interacionismo sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart.

 

15) Há uma obra que gostaria de destacar?

Mas que obras autores: Ausias March, Joan Salvat-Papasseit, Joan Brossa, Vicent Andrés Estellés por citar alguns poetas da minha lingua primeira. Pessoa em português. Garcia Lorca e meu amigo José Cereijo em espanhol. Tantos poetas e tantas obras… os sonetos de Borges.

 

16) O mundo acelera. Estamos a perder o equilíbrio?

 

HOJE

 

o mundo acelera

o equilíbrio não se perde

desaprende-se

 

17) Que vozes o acompanham, que autores o atravessam?

Na verdade, as minhas vozes interiores são polifônicas: um concerto onde ressoam os meus ancestrais, as minhas leituras, a música que me habita.

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AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028

Dirce Carneiro – acadêmica, cadeira 26

 

sábado, 4 de abril de 2026

Poetrix de Sandra Boveto


ESTRELAS SILENCIAM DIANTE DA SURDEZ


ora direis ouvir

a boca abre

orelhas pra que te quero


Sandra Boveto


Poetrix de Diana Pilatti


 

Poetrix bilíngue inglês/português:


BIRTH


each full moon rising, a dream

undoing knots and threads, I reborn

reusing the same shroud


Diana Pilatti



NASCIMENTO


a cada lua alta, um sonho

desfaço nós e tramas, renasço

reaproveito a mesma mortalha


Diana Pilatti


Do livro PETITE SYNESTESIAS: Chosen Poetrix (PEQUENAS SINESTESIAS: Poetrix escolhidos), de Diana Pilatti, com Tradução de Sarah Muricy e Revisão de José de Castro.