quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Quatro Poetrix de José de Castro



FLOR-DE-LIS


Mulher e flor 

Pólen e vento 

Fecunda primavera 


José de Castro



PRENÚNCIOS DE PRIMAVERA  


Noites se estrelam

Vaga-lumes pisca-piscam nos brejos 

Serenateiam as cigarras


José de Castro



PRIMO VERE


Pós-inverno, sorriem as flores

Além, espreita o verão 

Segue-se dança de estações 


José de Castro 

*A palavra “primavera” deriva do latim “primo vere” e significa “primeiro verão”.



PLANTIO 


Pelos campos, semeei Poetrix 

Aguei-o com rimas

Floraram sustos 


José de Castro


Dez Poetrix de Dirce Carneiro

 


 

CRÈME DE LA CRÈME


Tudo o que é de fora, é bom

A colônia persiste, neva no Natal

Poema tropical sua para soar


Dirce Carneiro



LOAS E LENDAS


Murros em ponta de faca

Água mole em pedra dura, cansa

Ser rocha, mesmo assim, verte o verso


Dirce Carneiro



MINHA HISTÓRIA, HIT ALEGÓRICO 


Amor de marinheiro

Olhar perdido no cais

O fruto bendito sem pai


Dirce Carneiro

(Comp. Chico Buarque)



ACHADOS E PERDIDOS


Na reta, perde a sintaxe

Sentido acena depois da esquina

Saudações, enjambement


Dirce Carneiro



SEM ECOS


Voz dissonante fala

o que se ouve, fere

a sintonia treme


Dirce Carneiro



OLOR JUVENIL


Breve brisa beija

A face rubra-se

Em tons de rosa, deseja


Dirce Carneiro



EM PARTES


Livre caminho

Aonde vou levo-me

Eu inteira, parto


Dirce Carneiro



PORTA ABERTA


Passarinho deu a senha

Voar solta o que te ata

Puxa a ponta do nó----


Dirce Carneiro



SENTADO NA PRAÇA EM SIDNEY, UM NEGRO BÊBADO PEDIA


Numa terra distante, eu vi

Ele olhou-me nos olhos

Travei, meu país estava ali


Dirce Carneiro

(Esses habitantes da Austrália de pele escura são os aborígenes, o povo originário)



MEU POEMA, MINHA RÉGUA


Nos meus versos livres, fatio

A torta linha do tempo, traço

Multiplico os enjambements


Dirce Carneiro


Poetrix de Ronaldo Jacobina



PARA HONESTINO IN MEMORIAM

Ao estudante Honestino Monteiro Guimarães 


Honesto até no nome

Na Dita dura: triste destino

Já o asqueroso filho do genocida me deixa insone


Ronaldo Jacobina


Oito Poetrix de Oswaldo Martins

 



MAUS CAMINHOS SÃO POSSÍVEIS...

 

casa instável de família

pobre mundo da tristeza

ter cobrança de agiota

 

Oswaldo Martins



SER DOENTE TERMINAL

 

moribundo, triste e torto

porto mudo feito a morte

blasfemando sobre a sorte

 

Oswaldo Martins

 


BRASILEIRA COSA NOSTRA

 

bons trabalhadores seguem

forte luta por trabalho

má direita contra o povo 

 

Oswaldo Martins

 


PERNAS CURTAS SEMPRE TÊM...

 

dica sobre coisa absurda

pensamento expondo Deus

demonismos de Maleus 

 

Oswaldo Martins

 


NA CIDADE EM DESMANTELO

 

horizonte dum vazio 

morto canto destruído

prefeitura tem... ausente!

 

Oswaldo Martins

 


TRESLOUCADO MIRA O MAR

 

surfa a vaga enquanto fuma

toca espuma leve e solta

sob a bruma morre a mente

 

Oswaldo Martins

  


MÚLTIPLO PATINHO ‘SMART’

 

anda, voa, nada, corre

bem melhor com tucupi

nada faz certinho aqui

 

Oswaldo Martins



DICAS PARA CANDIDATOS

 

pelas ruas tem buracos

são cavacos, não telhados

míngua a vida em desgraçados

 

Oswaldo Martins

Sete Grafitrix de Lílian Maial

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DES_A_FIO: Análise de Poetrix de José de Castro, por Dirce Carneiro


ANÁLISE DE POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO

Por Dirce Carneiro

Acadêmica, cadeira 26


DES_A_FIO


Não mais conto os dias 

Na brancura, os desfio 

Fio a fio, desafia-me a velhice


José de Castro


Primeiramente, salta aos olhos a construção do título. 

A desconstrução de uma palavra-verbo-substantivo (desafio) que lhe sobrepõe outros sentidos da palavra resultante: DES_A_FIO

Se desafio fica no não dito, nas entrelinhas, na construção com os underlines, a resultante, des – a – fio, com o prefixo [des] nos remetendo a algo que já não é, relativo a fio, com a sobreposição, ainda, de outro sentido, [a fio]. A fio, nos aproxima de fio por fio, um por um, e ainda, de [afio]: um sujeito afiado, decidido, com suas escolhas bem resolvidas.

Então temos, entre o dito e o não dito, a sobreposição dos sentidos: desafio, não olhar o que passou, o que já não é; fio por fio (um por um), afio (o sujeito com suas escolhas bem resolvidas).

Realmente, é um título bem instigante, que toca na representação visual da palavra e, também, no que ela representa no não dito, no emocional, na interpretação, nas entrelinhas, no que o leitor tem a descobrir.

No primeiro verso: 

Não mais conto os dias, o eu poético nos remete ao prefixo [des]. Ele descontrói o tempo, não vive do passado, sugerindo que só o presente importa. Mas...houve um tempo em que contar os dias importava: [Não mais conto os dias]. O calendário já não importa. Carpe diem, é a sugestão. Há uma época em que não podemos perder tempo e o passar dos dias nos aflige, tanta é a energia para gastar, compromissos a cumprir, desejos a realizar, medo e culpa de não dar conta, os outros e nós mesmos a cobrar. Isto tudo ficou para trás.

Segundo verso: 

Na brancura, os desfio, o eu poético nos coloca diante da dualidade, estaria se referindo a dias ou, quem sabe, a fios (de cabelo?), ou aos dois?

Na brancura: [1] no que ainda há de vir, no desconhecido do tempo; [2] na sabedoria do presente, amadurecido pela vida. [3] nos cabelos brancos; os desfio: tira-lhes o peso, torna-os mais leves. Pode ser tanto com relação aos dias vividos como à simbologia dos cabelos brancos. 

Terceiro verso: 

Fio a fio, desafia-me a velhice: finalmente, no terceiro verso, o eu poético condensa, traz à tona o sentido da composição, desde o título. Dia a dia, o tempo presente o desafia. Viver cada dia como se fosse único, de maneira leve, mas determinada.

Conclusão:

Através da sonoridade, de recursos visuais, do léxico, de metáforas, o poeta constrói um poetrix com várias camadas de sentidos e símbolos. Até a leitura do último verso e, também depois, ainda outros sentidos ficam a nos sugestionar, face à engenhosidade da concepção, arquitetura e realização do poema. Note-se certa circularidade, tanto no aspecto formal, quanto no aspecto semântico. O poetrix nos possibilita, também, a reflexão, neste caso, uma variação sobre o tema.

Como uma única leitura não esgota o sentido de um poema, pois não é uma equação matemática, concluo optando pelo sentido de que o poeta já não se aflige com o passar dos dias, mas vive-os no presente, Carpe diem, de maneira leve, mas tenaz, desafiado pelo conhecimento do caráter do tempo, esse ser invisível, que nos espreita e confronta, mas que pode ser desfiado, tornado leve, e assim, desafiado.

Dirce Carneiro

4 de setembro de 2026


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quatro Poetrix de Claudio Trindade


 

SILÊNCIO DOS VERSOS 


pergaminhos escondem pensamentos

palavras costuram esperanças 

escritos não queimam


Claudio Trindade



SEM PEDIR LICENÇA 


Fogo consome a rigidez da lenha

Vermelho brilha no escuro

Luz da esperança incendeia


Claudio Trindade



SABER ESPERAR 


curva-se ao prazer raso

luzes eternas na tela

lamentou, mas esqueceu de viver


Claudio Trindade



PÉ NÃO CRIA RAIZES 


Olhar não dá pausa

vida é um sopro

perdeu-se a essência do eu


Claudio Trindade


Poetrix de Carmem Galbes

imagem pinterest

PAI


Teu sopro me ventou para o mundo

Teus olhos são meu Sul

Meu sucesso é teu Norte


Carmem Galbes

Cinco Poetrix de Oswaldo Martins

ORÇAMENTO FEITO ESCASSO!?

 

guarda um jeito criminoso

vê-se o dedo do fracasso

traz político maldoso

 

Oswaldo Martins

 Salvador, 31/08/2026.


CHORO DOCE LACRIMEJA

 

relampeja no horizonte

forte trovejar em cima

água em pingos rega a vida

 

Oswaldo Martins

 Salvador, 31/08/2026.


COM RANDÔMICO VIVER

 

desbalanço de poderes

pulsa a morte em seres vivos

contra a vida tem humanos

 

Oswaldo Martins

Salvador, 01/09/2026.


 DA SOBREVIVÊNCIA EM RUA

 

camelôs a plenos berros

desespero todo dia

competência indubitável

 

Oswaldo Martins

 Salvador, 01/09/2026.


 VERGONHOSO E VIL MERDONÇA

 

despreparo inconsequente

desgraçada ação teocrática

desrespeito para Themis

 

Oswaldo Martins

 Salvador, 01/09/2026.

Poetrix de Luciene Avanzini

 ANDRÉA NUTRI DE CORPO E ALMA 


Pratos equilibram antigos silêncios

Escolhas alimentam futuros

Tempera vidas cura saudade


Luciene Avanzini