Mostrando postagens com marcador Entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevista. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista com Rita Queiroz

ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX

ENTREVISTA COM RITA QUEIROZ

CADEIRA 3


RITA QUEIROZ, O LIRISMO COMO META

 

Rita Queiroz, filha de Salvador, soteropolitana de corpo e mar, poeta nascida nessa cidade mítica onde o Atlântico bate como um coração antigo. Terra de histórias e encantos, do Capitão da Areia e de tantas canções que se derramam pelas ladeiras, entre o sal do vento e o riso do povo. Nela, Rita bebe essa luz quente e mestiça e escreve como quem conhece o segredo das marés, com a alma aberta, livre e cheia de vida. Professora universitária e especialista em filologia, desde 2019 frequenta o Poetrix com um lirismo singular feminino e feminista na Confraria da Ciranda Poetrix e, desde dezembro de 2025 ocupa a cadeira 3 da nossa Academia Internacional Poetrix. Clique aqui para acessar a biografia completa da autora. 

 

Rita, é impossível começar sem evocar tua cidade mítica, Salvador. De que modo esse mar, essas ladeiras e essa memória viva respiram dentro da tua poesia?

Salvador é uma poesia a céu aberto. Onde quer que vá, respiro poesia. Minhas vivências, minhas memórias, meus afetos perpassam pela cidade. Minha infância, minha adolescência, minha vida adulta se encontram na minha escrita. E o mar, com seus mistérios e encantos, sempre me fascinou e me proporcionou mergulhar em mim mesma e assim poder me revelar, ora como água rasa, ora como água profunda.

 


Conheci, noutra vida, Jorge Amado no coração do Pelourinho. E tu mergulhaste no seu léxico. Que marcas dele habitam tua escrita? E que outras vozes de grandes autores te acompanham?

Quando estudante do curso de Letras, tive a oportunidade de conhecer o Jorge Amado. Estive presente nas comemorações dos seus 80 anos. Desde menina que a obra de Jorge Amado tem impacto na minha vida. Viver, através da escrita dele, a saga do cacau, a luta pelo reconhecimento da cultura afro-brasileira, a defesa do povo de santo, o protagonismo feminino reverberaram na minha formação intelectual. Estudar suas obras a partir do vocabulário popular foi uma experiência que me remeteu à minha infância, quando ia para a casa de meus avós na zona rural e ouvia as pessoas falarem daquele jeito que ele escrevia. Além de Jorge Amado, poetas como Cecília Meireles e Vinícius de Moraes marcaram minha produção.

 

Em que paisagens nasceram teus primeiros versos, foram ruas, mares, silêncios ou ausências?

Ausências, de quem se foi através das águas, sejam estas doces ou salgadas.

 

Teu destino parece entrelaçado à palavra… Como se deu o teu encontro com o Poetrix e que horizontes ele abriu na tua criação?


Sim, a palavra é o meu combustível. A escrita minimalista sempre fez parte da minha trajetória, mesmo não conhecendo o Poetrix, do qual só tomei conhecimento em 2019, quando participei do Encontro do Mulherio das Letras em Natal, no Rio Grande do Norte. Durante o evento, a Luciene Avanzini me convidou para uma oficina ministrada pela Aila Magalhães. Depois disso, ela me chamou para fazer parte do grupo Ciranda Poetrix, no qual conheci muita gente e pude desenvolver melhor a minha escrita minimalista. Assim, tenho participações em algumas antologias da AIP, de todas da Ciranda Poetrix, além de dois livros solo de Poetrix e um com 1/3 de Poetrix, o “Mínima Poesia”, o qual ficou em segundo lugar no concurso da AIP.

 

Como professora que orienta novos olhares, que leitura nos ofereces do Poetrix e das suas possibilidades mais sutis?

 Atualmente estou aposentada das atividades em sala de aula. Quando estava na ativa, atuava na área da filologia, não trabalhando especificamente com texto literário. No entanto, tenho ministrado oficinas de criação literária nas quais falo da poesia minimalista, como o Poetrix. Tanto a leitura quanto a produção de Poetrix favorecem a interpretação nas entrelinhas. Sendo um texto que comporta um título e três versos, os quais devem somar apenas 30 sílabas, instiga a imaginação, a concisão e a precisão. Para qualquer pessoa que escreve, isso leva à lapidação desse texto, buscando usar as palavras de forma que haja um impacto na leitura do Poetrix.

 


Como dialogam, em ti, a investigação acadêmica e o gesto íntimo de escrever poesia?

Minha investigação acadêmica não dialoga, diretamente, com minha produção poética. Embora haja uma influência discreta, pois ser do mundo das Letras nos permite conexões diversas. Passado e presente se misturam e temas investigados por mim, como a violência contra mulheres, se fazem ecoar em minha produção, seja esta em versos ou em prosa. Ler autores canônicos e os contemporâneos têm me ajudado a escrever melhor, não só a poesia minimalista como textos diversos.

 

Tendo Olga Savary como patrona, que ressonâncias encontras na tua obra de poeta e contista nordestina?

A literatura de Olga Savary pulsa feminismo. Desse modo, ressoam nossas obras.

 

O que é o Poetrix para ti? Como se acende, no teu íntimo, o instante da criação?

O Poetrix é para mim um sopro, um alento, um golpe profundo. O Poetrix evoca muitas sensações e muitos sentidos. Há Poetrix que nos deixam sem ar, como se tivéssemos recebido um soco no estômago. Há outros que nos deixam em êxtase e outros que nos fazem acalmar a alma. O que escrevo é mais lírico. Então ele surge da mesma forma como escrevo outros textos, apenas com o diferencial que devo ser mais sucinta, deixar os sentidos nas entrelinhas.

 

Teu lirismo, tão singular e reconhecido, como o nomearias, se tivesses de lhe dar um rosto?

Seria um rosto em braille, aberto a inúmeras leituras, seja através do tato ou da decifração dos seus caracteres plurissignificativos.

 

Poderias partilhar um dos teus Poetrix e abrir-nos a porta do seu sentido?

 

MANHÃS DE SOL

 

Bem-te-vis despertam sonolentos

Visto-me de esperanças vivas

Acasos mudam destinos

 

Rita Queiroz

 

Deixo que vocês leiam-me e digam quais sentidos foram despertados.

 

Como nova acadêmica da AIP, que caminhos desejas semear com a tua voz?

Desejo sempre semear, onde quer que esteja, a poesia, plena de amor, esperanças, a fim de que possamos transformar esse mundo caótico.

 


Mulher e poeta, como percebes hoje a escrita como espaço de afirmação e travessia feminina?

Comecei a escrever e a publicar com mais produtividade a partir de 2015. Lancei-me primeiro nas redes sociais. Nesse espaço, encontrei ex-alunos e ex-alunas que me incentivaram a seguir. Assim, ex-alunas que atuam na docência na área da literatura, me propuseram uma discussão acerca da autoria feminina. Desse modo, surgiu o coletivo que coordeno: a Confraria Poética Feminina. Formado por mulheres, desde 2016, já publicamos 10 coletâneas e duas agendas poéticas, além de termos levado nossas vozes a dezenas de eventos literários no Brasil e no exterior. Com esse coletivo, damos vez e voz para outras mulheres que se reconhecem na nossa escrita. Nesses 10 anos de existência, outros coletivos surgiram e vimos a força feminina presente em várias áreas. Transformamos silêncios em ecos, reverberados na poesia, na prosa, nos textos para as infâncias, na música e nas artes de um modo geral.

 

Para terminar: onde se encontram, para ti, a relação entre a arte e a vida?

Em tudo. Não há como separar a arte e a vida, pois elas se complementam. Não há fronteiras.

 


 

Academia Internacional Poetrix

Gestão Uni-Versos (2026-2028)

Entrevista por Ximo Dolz

Acadêmico cadeira 30

As imagens pertencem ao acervo particular da autora. 

domingo, 12 de abril de 2026

Entrevista com Ximo Dolz

 ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP

ENTREVISTA COM O ACADÊMICO

XIMO DOLZ – CADEIRA 30

 

 

Joaquim Dolz, professor honorário da Universidade de Genebra, pesquisador do Poetrix e poeta sob o nome de Ximo Dolz, integra a Academia Internacional Poetrix desde dezembro de 2025. Entre a didática das línguas e a respiração breve do poema mínimo, constrói uma obra onde pensar e sentir se entrelaçam com discrição e intensidade. 

Biografia completa de Ximo Dolz e seu Discurso de posse estão disponíveis no blog da AIP. 

Entrevista concedida a Dirce Carneiro

(acadêmica – cadeira 26)

Gestão Uni_Versos – 2026/2028

 


 

1) Onde nasceu? Que memórias guardam os seus primeiros lugares?


Nasci em Morella, pequena cidade medieval do País de València — o meu Macondo íntimo. As muralhas, o castelo, as ruas estreitas: tudo isso moldou não apenas a minha infância, mas também a minha imaginação. Muito cedo comecei a escrever e a recitar, como se a palavra já me tivesse escolhido. A minha língua primeira é o catalão, e nela permanece um compromisso profundo: o de cuidar de uma língua que resiste há séculos. Escrevo noutras línguas — francês, português, espanhol —, mas é no catalão que o mundo me soa mais verdadeiro.

 

2) Como a sua trajetória acadêmica atravessa a sua escrita?

Há mais de quatro décadas habito a Universidade de Genebra. Dediquei-me ao ensino e à aprendizagem das línguas, à didática do francês, à formação de professores. A maior parte da minha obra é académica, mas suspeito que também aí se esconde uma forma de escrita — uma atenção ao detalhe, uma escuta do outro, uma arquitetura do sentido.

 

3) O que o plurilinguismo lhe ensinou?

Aprender línguas foi, antes de tudo, aprender a deslocar-me. Ao falar um português imperfeito, compreendi melhor outras culturas e, ao mesmo tempo, relativizei a minha. Descentrei-me. Abri-me. O plurilinguismo não é apenas uma competência: é uma forma de estar no mundo. Enriquece a sociabilidade, sim — mas também a maneira de pensar.

 

4) O olhar atento e o pensamento crítico: o que lhe ensinaram?


O olhar atento e o pensamento crítico ensinaram-me a não aceitar o mundo como dado, mas como construção. A ver o invisível, a interrogar o evidente, a escutar antes de julgar.

Olhar e pensar, afinal, são formas de responsabilidade. A ética da discussão de Habermas é um caminho.

 

5) Há algo que ainda deseja aprender?

Tudo. Quanto mais estudei, mais consciência tenho do que ignoro. Talvez seja esse o verdadeiro motor: saber que o saber nunca se fecha.

 

6) Como chegou ao Poetrix?

Cheguei quase por acaso, pela mão de Paula Cobucci, que investigava o gênero em Genebra. Entrei como observador e acabei por ficar, como quem encontra uma casa inesperada. Desde 2022 escrevo Poetrix quase diariamente.

 

7) Como nasce um Poetrix em si?

O Poetrix, para mim, é jogo e rigor. Um espaço mínimo onde a linguagem se condensa. Procuro, com poucos elementos, criar uma abertura: um enigma, uma vibração, uma pequena fratura no sentido. Escrevo sem ambição, mas com alegria quando surge essa centelha: três versos, um título, e de repente algo se expande.

 

8) A criação está entre dor e prazer?

Sim, ambos coexistem. A escrita foi também terapêutica. Como dizia Octavio Paz, a poesia é um diálogo, e esse diálogo, muitas vezes, é interior.

 

9) O que representa a Academia para si?

Uma partilha. Um compromisso com um projeto coletivo iniciado por Goulart Gomes e continuado por vozes que admiro. Também um desafio: atravessar momentos de fragilidade e transformá-los em construção comum.

 

10) E a experiência nos grupos?

Rica, viva, por vezes tensa, como todo espaço de criação. Há trocas, há aprendizagens, e há também diferenças. Eu próprio sei que caminho com uma visão muito pessoal do Poetrix.

 

11) O Poetrix pode ser ensinado?

É essa a pergunta que me move. Com Paula Cobucci, estudamos a evolução do gênero, as suas formas, as práticas nas plataformas. Procuramos construir um modelo didático que permita explorar o seu potencial na aprendizagem da língua e da criação literária.

 

12) E o seu papel na Academia?

Hoje participo na direção, mas o meu desejo é simples: explorar o Poetrix como instrumento de aprendizagem, da língua, da escuta, da sensibilidade.

 


13) O que pode a arte num mundo inquieto?

No meu caso, humaniza-me. Devolve-me ao essencial quando tudo à volta parece disperso. A arte é uma forma de reencontro: comigo mesmo, com os outros, com aquilo que ainda resiste ao ruído… é uma resistência contra a guerra e a sem-razão, contra a ausência de lógica ou explicação aparente do que o mundo está a viver.

Ela desacelera o tempo, cria um espaço de escuta e de atenção, onde o sentido pode emergir sem pressa. Num mundo fragmentado e em guerra, a arte recompõe, não resolve, mas ilumina. Permite nomear o indizível, dar forma à inquietação, transformar a experiência em partilha.

Também me ensina a olhar: a ver o detalhe, o quase invisível, aquilo que passa despercebido na pressa do quotidiano. E, nesse gesto, há já uma ética habermassiana, uma maneira de estar mais atento, mais disponível, mais humano.

A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o habita. E talvez isso seja, hoje, uma das formas mais necessárias de resistência.

 

14) Que livros, que caminhos de escrita o definem?

A biblioteca completa como diria Borges. E uma perspectiva teórica o interacionismo sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart.

 

15) Há uma obra que gostaria de destacar?

Mas que obras autores: Ausias March, Joan Salvat-Papasseit, Joan Brossa, Vicent Andrés Estellés por citar alguns poetas da minha lingua primeira. Pessoa em português. Garcia Lorca e meu amigo José Cereijo em espanhol. Tantos poetas e tantas obras… os sonetos de Borges.

 

16) O mundo acelera. Estamos a perder o equilíbrio?

 

HOJE

 

o mundo acelera

o equilíbrio não se perde

desaprende-se

 

17) Que vozes o acompanham, que autores o atravessam?

Na verdade, as minhas vozes interiores são polifônicas: um concerto onde ressoam os meus ancestrais, as minhas leituras, a música que me habita.

________________________________

AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028

Dirce Carneiro – acadêmica, cadeira 26

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Entrevista com Margarida Montejano

 


ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX

ENTREVISTA COM ACADÊMICA MARGARIDA MONTEJANO

CADEIRA 29

 

Entrevista por Ximo Dolz

 

MARGARIDA MONTEJANO, A VOZ DA LOBA

 

Os Poetrix e os contos de Margarida Montejano, da cadeira 29 da AIP, revelam uma literatura de resistência: poesia feminista, empoderada, que pulsa e reivindica a voz da mulher, o aurido sensível da loba que desperta. Catadora de sentidos e palavras, como sua patrona Mardilê Friedrich Fabre, Margarida transforma cada verso em território de liberdade e invenção. É autora dos livros Fio de Prata (contos), Chão Ancestral(poesia), A Poeta e a Flor, A Poeta e a Sabiá, (infantojuvenis) e O Silêncio da Loba, contos.

O entrevistador sente-se irmão de Margarida: ambos entraram na Academia juntos e compartilham a mesma paixão pelos jogos de linguagem e pela concisão enigmática do Poetrix. Esta conversa nasce desse laço e da vontade de explorar o universo singular de sua escrita e de descobrir o enigma do seu processo criativo.

 

01. Como descobriu o Poetrix?

O Poetrix foi-me apresentado pela poeta e amiga Valéria Pisauro, num momento em que eu estava com o braço quebrado e impossibilitada de trabalhar. Valéria deu-me todas as coordenadas, da teoria à prática, e, assim, encantei-me com a arte de produzir poesia pelo prisma do minimalismo. Valéria indicou-me leituras e acompanhou-me até que eu caminhasse sozinha. Sou grata a ela, minha madrinha e incentivadora da arte literária! Minimalismo, verso curto, paixão que nasce.

 

02. Quais autores e quais ecos marcaram sua escrita?

Tornei-me uma leitora contumaz na adolescência. Queria ler e entender tudo e a biblioteca pública era meu refúgio, quando podia, pois já dividia o tempo entre escola à noite e trabalho, desde os 14 anos. Encantava-me com a escrita de Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz, a poesia de Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, as letras de música de Chico Buarque. Dentre outras e outros escritores, li e reli três vezes Cem Anos de Solidão, de García Márquez, e senti-me personagem de sua obra, pois o povoado Macondo, naquela época, parecia-me semelhante a algum vilarejo desse nosso imenso Brasil.

 


03. A propósito da sua origem e infância: lugares que guarda na memória e que pulsam na sua escrita.

Nasci em Mogi Guaçu/SP, em meio à ditadura militar, e formei-me pedagoga quando aquele período dava seus últimos respiros. A literatura da Teologia da Libertação, à época, aliada a professores críticos do sistema político-econômico, formou-me politicamente. Talvez o espírito inquieto e a ânsia pela mudança tenham alicerçado minhas bases na esperança de um tempo livre de opressão, e esse ideal permanece em mim até hoje. A universidade e a literatura acenderam-me luzes.

 

04. Como entrelaça literatura, escrita, ofício e vida?

Então… a vida se inscreve nesta labuta infinita de construção e reconstrução diária. A leitura de mundo que vamos tecendo convida-nos a escrevê-la e, assim, trilhamos o caminho coletando elementos, cenários e inspirações para a escrita. Trabalho, família, problemas do cotidiano vão tecendo o roteiro e, quando a gente se dá conta, fez um Poetrix que, numa abordagem minimalista, resume:

 

ESCRITURAS DA VIDA

 

Pedras do caminho

pés, coração e mãos calejados

histórias afetivas no prelo

 

05. Mulher que reivindica sua voz: qual a sua relação com o universo feminino das letras?

Minha voz na escrita busca o eco da voz silenciada das mulheres que me antecederam, que me constituíram e me fazem existir no movimento das horas, dos dias. Sou grata a elas porque me inspiram a gritar, a denunciar e a continuar me expressando pelas múltiplas possibilidades da escrita. Sigo a desafiar os códigos linguísticos e a misturar palavras, sentimentos, versos e prosa, mas sempre vinculados ao compromisso com a ética e com a esperança. A luta pela vida e contra a misoginia formam-me cotidianamente e tornaram-se a razão da minha existência.

 

06. Qual é a sua filosofia da vida? O que a existência lhe ensinou?

Aprendi que desentendimentos, brigas, discussões, violência não cabem em lugar nenhum, pois todas estas ações culminam em guerra, e nela não há vencedor. Minha filosofia de vida é, portanto, dialógica. Pela prática do diálogo é possível promover, semear, cultivar a paz por onde formos, por onde passarmos. Penso que o que nos move não pode ser diferente desse princípio, pois, se estamos em paz, é sinal de que não nos falta nada.

 

07. Como vê o legado do minimalismo, sua força?

A literatura minimalista traduz o tempo em que estamos vivendo. Tempo fluido e instantâneo, exigente de objetividade. Assim, esse movimento propõe desafiar a construção do conhecimento na mesma lógica: a da aprendizagem da escrita e da leitura, fundamentadas em pensamentos e mensagens que expressam clareza, brevidade e leveza. Nesta modalidade literária, o sujeito que escreve torna-se capaz de se expressar a partir de um olhar criterioso sobre a realidade à sua volta e, com poucas palavras ou versos, descrever um cenário, uma história, um fato. Provoca no leitor a análise crítica, ética e criativa do que o autor pretendeu dizer objetivamente. Dizendo de outro modo, faz os sujeitos que leem e escrevem pensarem e produzirem o entendimento sobre o objetivo do texto e da literatura com a precisão que o minimalismo propõe.

 


08. Entre razão e criação: como são os processos, rituais, bloqueios e florescimentos da sua escrita?

A realidade, o envoltório, a rudeza das relações humanas inspiram-me a escrever. Como escritora feminista, sou provocada pelos fatos do cotidiano que ferem a vida e a dignidade humana. A princípio, sacodem-me. Preciso repensar, amadurecer… A ideia sobre o fato, o dado, a situação, fica guardada, gestando-se em meu pensamento até que reúno energia e leituras complementares para transpô-la às teclas do computador, materializando-a. Os bloqueios geralmente são gerados por falta de tempo para leituras, para debates de ideia. Mas logo vem o cotidiano e me lança novamente desafios à produção escrita.

 

09. O que representa para você a Academia? Como se sente como acadêmica?

Percebo a importância deste espaço para a expansão do Poetrix no Brasil e mundo afora. Contudo, ainda não consigo me sentir acadêmica. Talvez o processo ainda esteja em construção em mim. Minha participação ainda está em desenvolvimento. Pretendo estudar mais o Poetrix, tornar-me uma acadêmica presente e que minha energia seja potente neste espaço.

 

10. O que gostaria de implementar na Academia?

Levar o Poetrix para os cursos de licenciatura e para grandes eventos (feiras, bienais…) com oficinas e participação em mesas.



 11. Em que coletivos literários participa?

Participo de vários coletivos literários, dentre eles Feminário Conexões; Elas Publicam; Escreva, Garota; Mulheres que Escrevem; Coletivo Andorinhas que escrevem; Mulherio das Letras de São Paulo, dentre outros. Para além dos coletivos que me estimulam a ler e a escrever, participo também de Clube de Leituras, cuja base se fundamenta no movimento internacional Leia Mulheres, instituído em 2014 e, no Brasil, em 2015. Podemos dizer que essa ação catalisadora, transformou o ato individual de ler em um ato político e coletivo, forçando editoras a resgatarem clássicos esquecidos e a investirem em vozes contemporâneas diversa, dentre elas, a feminina. Este movimento visa incentivar a leitura, o debate e a divulgação de obras escritas por mulheres, combatendo a desigualdade de gênero no mercado editorial. Segundo dados publicados na imprensa, em 2025 as mulheres lideraram o mercado editorial, apontando que 62% das pessoas que compraram livros foram mulheres. Enfim, participar de coletivos femininos fortalece a nossa luta pela democracia na produção literária e em todos os espaços, assim como reitera a todas e todos da importância, no tempo presente, de ler mulheres.

 

12. Você escreve contos e Poetrix: como se cruzam, se respondem e se completam?

Minha prática literária, ainda em construção, sempre foi a da poesia e da prosa e não imaginava ser capaz de produzir escrita minimalista. Aprendi que posso escrever e ser tão intensa em três versos, quanto num conto, num poema longo. O Poetrix desafia-me e quando leio ou produzo versos desta modalidade literária, sinto que eles me convidam à reflexão e à continuidade de escrever sobre os sentidos que transportam. Penso que a arte literária está em profunda complementariedade e em sintonia na construção do bom, do bem e do belo.

 

13. Finalmente, qual é o papel da Arte na vida?

A arte é a esperança de salvação da humanidade. Por ela é possível falar com o corpo e a alma, sem a emissão de sons; fechar os olhos e senti-la pelos poros; tocá-la em pensamentos, liberar a emoção. A arte ressignifica nossa humanidade porque anuncia a grandeza da criação humana e carrega em si o potencial para denunciar, com propósito ético, criativo, crítico, tudo aquilo que é letal à vida e desumaniza nossa existência. A arte salva!

 

______________________________

Academia Internacional Poetrix

Gestão Uni_Versos (2026/2028)

Entrevista por Ximo Dolz

Acadêmico – cadeira 30

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Entrevista do Acadêmico Marcelo Marques






ACADÊMICO MARCELO MARQUES

CADEIRA 28 - AIP 



Entrevista a Dirce Carneiro
Acadêmica – Cadeira 26





1) Você é paulistano. Que lembranças traz da sua infância e como isso influencia na sua escrita?

Nasci em São Paulo e aos 3 anos minha família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vivi até os 12 anos. Este período na minha infância foi marcado por momentos difíceis, pois minha mãe faleceu quando eu tinha 7 anos e tive que me separar também da minha avó materna que era minha referência, devido a novas uniões e separações do meu pai: morei com duas madrastas bem diferentes em seus ritmos de vida e distante da minha família verdadeira, até que aos 11 anos, pude enfim, voltar a viver com minha avó, ainda no Rio, e, no ano seguinte, retornar com ela a São Paulo, para a casa onde eu nasci.

Sempre gostei muito de ler; aprendi bem cedo e ao ingressar na escola, fui considerado apto para iniciar na 2ª Série.

Lembro-me de que na infância, gostava de ler embalagens e quando saía pela cidade, ficava lendo cartazes nas ruas, os nomes das lojas nas fachadas. Onde eu via letras, lá estava eu lendo os trechos. Era meu passatempo preferido e aos poucos comecei a ler gibis e não demorou para eu me interessar por livros e conhecer os autores de poesias e contos, entre outros gêneros e querer passar as historinhas e fantasias que eu criava para o papel.


2) Interessante a sua formação. Desenho e Letras. Como estas Artes se relacionam na sua Literatura?

Na pré-adolescência, também comecei a ter uma afinidade especial pelas imagens e artes plásticas: Fotos, paisagens, desenhos, etc. e após concluir o ensino médio, estava empolgado para entrar na área de Publicidade e me decidi pelo Curso de Desenho de Comunicação. Trabalhei com Produção de Eventos, em agência de Publicidade, desenvolvimento de textos e roteiros, com artes visuais e depois como Design Gráfico, com criações e propagandas por um tempo.

Porém, nunca abandonei o hábito e o gosto pela leitura e escrita, com encanto especial pela música e Poesia, através das belas composições de grande qualidade dos ícones culturais da época. Decidi, assim, pela Faculdade de Letras, visto ser uma área da qual eu sempre gostei de forma especial e cheguei a trabalhar por um curto período de dois anos na área da Educação.

Na minha Literatura, estas duas vertentes da arte se completam, pois sempre associo a minha escrita com alguma imagem. Isso ajuda muito no meu processo criativo. Uma imagem pode me inspirar a criação escrita, assim como algo que eu tenha escrito, me levar a gerar ou buscar uma imagem adequada para complementar.



3) Que outros aspectos da sua educação e formação interferem no seu processo criativo? Como é seu processo?

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Entrevista de Cleusa Piovesan

 


ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX 

ENTREVISTA ACADÊMICA CLEUSA PIOVESAN 

CADEIRA 27, PATRONA TÊ SOARES 

 

Entrevista para Dirce Carneiro, cadeira 26 da AIP (Diretoria 25/27) 

 

1) Qual é sua formação acadêmica e como ela influencia na sua escrita? 

Sou Doutoranda em Letras e Mestra em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE); tenho Graduação em Letras - Português/Inglês e em Pedagogia; sou especialista em Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e em Língua e Literatura; e professora da rede pública do Estado do Paraná desde 2001. Essa formação influencia muito em minha atuação como articulista no âmbito acadêmico, como pesquisadora das relações de gênero e da diversidade racial e cultural, e na minha criação poético-literária, experimentalista em diversos gêneros literários, pela bagagem cultural e científica que representam. 

 

2) Onde você nasceu, passou a infância, juventude? O que guarda desse tempo e lugar/lugares? 

Nasci em São João e, de lá, mudei-me para Santa Isabel do Oeste, onde residi por 30 anos. Em 2006 residi em Planalto, e depois me fixei em Capanema, onde resido desde setembro de 2007; todos são municípios da região Sudoeste do Paraná. Minha identidade como sujeito social foi formada nesses espaços, guardados em minha memória afetiva, desde a infância, com a liberdade de correr livre pelos campos e pelas ruas de uma cidade pequena, de interior. Somente na vida adulta, com o ingresso na universidade, pude viajar e abrir meus horizontes e, após a publicação de meus livros, participei de muitos eventos literários e ingressei em algumas academias, em cidades maiores, porque onde moro não há muita movimentação cultural.  

 

3) Quando e como conheceu o Poetrix? Acha que sua escrita mudou, considerando o início? 

A princípio, destaco a importância das redes sociais como espaços para que o universo literário se expanda, assim, meu primeiro contato com o poetrix foi pela página no Facebook e no Recanto das Letras. Mais tarde, aprofundei meu entendimento sobre a Bula Poetrix e a Bula Aplicada que estipulam a composição do poetrix, quando entrei em contato com o Lorenzo Ferrari, em setembro de 2021, e fui aceita para integrar a Confraria Ciranda Poetrix. Na Confraria, conheci pessoas que já eram acadêmicos da AIP e, quando surgiu a oportunidade de me inscrever para ingressar na AIP, já estava com quase três anos de prática na escrita do poetrix e entendimento da estrutura desse poema minimalista e dos conceitos de Ítalo Calvino quanto à sua composição, e preenchi o formulário para o ingresso como acadêmica. A mudança que ocorreu na minha composição de poetrix é notória, porque, nos primeiros que compus, a maior atenção era dada para a não extrapolação das sílabas poéticas, e depois, com o estudo das Diretrizes da AIP, e das Seis propostas de Ítalo Calvino para o próximo milênio, houve o aprimoramento necessário para que a poeticidade de cada poetrix seja expressa, com maior facilidade.