domingo, 12 de abril de 2026

Entrevista com Ximo Dolz

 ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP

ENTREVISTA COM O ACADÊMICO

XIMO DOLZ – CADEIRA 30

 

 

Joaquim Dolz, professor honorário da Universidade de Genebra, pesquisador do Poetrix e poeta sob o nome de Ximo Dolz, integra a Academia Internacional Poetrix desde dezembro de 2025. Entre a didática das línguas e a respiração breve do poema mínimo, constrói uma obra onde pensar e sentir se entrelaçam com discrição e intensidade. 

Biografia completa de Ximo Dolz e seu Discurso de posse estão disponíveis no blog da AIP. 

Entrevista concedida a Dirce Carneiro

(acadêmica – cadeira 26)

Gestão Uni_Versos – 2026/2028

 


 

1) Onde nasceu? Que memórias guardam os seus primeiros lugares?


Nasci em Morella, pequena cidade medieval do País de València — o meu Macondo íntimo. As muralhas, o castelo, as ruas estreitas: tudo isso moldou não apenas a minha infância, mas também a minha imaginação. Muito cedo comecei a escrever e a recitar, como se a palavra já me tivesse escolhido. A minha língua primeira é o catalão, e nela permanece um compromisso profundo: o de cuidar de uma língua que resiste há séculos. Escrevo noutras línguas — francês, português, espanhol —, mas é no catalão que o mundo me soa mais verdadeiro.

 

2) Como a sua trajetória acadêmica atravessa a sua escrita?

Há mais de quatro décadas habito a Universidade de Genebra. Dediquei-me ao ensino e à aprendizagem das línguas, à didática do francês, à formação de professores. A maior parte da minha obra é académica, mas suspeito que também aí se esconde uma forma de escrita — uma atenção ao detalhe, uma escuta do outro, uma arquitetura do sentido.

 

3) O que o plurilinguismo lhe ensinou?

Aprender línguas foi, antes de tudo, aprender a deslocar-me. Ao falar um português imperfeito, compreendi melhor outras culturas e, ao mesmo tempo, relativizei a minha. Descentrei-me. Abri-me. O plurilinguismo não é apenas uma competência: é uma forma de estar no mundo. Enriquece a sociabilidade, sim — mas também a maneira de pensar.

 

4) O olhar atento e o pensamento crítico: o que lhe ensinaram?


O olhar atento e o pensamento crítico ensinaram-me a não aceitar o mundo como dado, mas como construção. A ver o invisível, a interrogar o evidente, a escutar antes de julgar.

Olhar e pensar, afinal, são formas de responsabilidade. A ética da discussão de Habermas é um caminho.

 

5) Há algo que ainda deseja aprender?

Tudo. Quanto mais estudei, mais consciência tenho do que ignoro. Talvez seja esse o verdadeiro motor: saber que o saber nunca se fecha.

 

6) Como chegou ao Poetrix?

Cheguei quase por acaso, pela mão de Paula Cobucci, que investigava o gênero em Genebra. Entrei como observador e acabei por ficar, como quem encontra uma casa inesperada. Desde 2022 escrevo Poetrix quase diariamente.

 

7) Como nasce um Poetrix em si?

O Poetrix, para mim, é jogo e rigor. Um espaço mínimo onde a linguagem se condensa. Procuro, com poucos elementos, criar uma abertura: um enigma, uma vibração, uma pequena fratura no sentido. Escrevo sem ambição, mas com alegria quando surge essa centelha: três versos, um título, e de repente algo se expande.

 

8) A criação está entre dor e prazer?

Sim, ambos coexistem. A escrita foi também terapêutica. Como dizia Octavio Paz, a poesia é um diálogo, e esse diálogo, muitas vezes, é interior.

 

9) O que representa a Academia para si?

Uma partilha. Um compromisso com um projeto coletivo iniciado por Goulart Gomes e continuado por vozes que admiro. Também um desafio: atravessar momentos de fragilidade e transformá-los em construção comum.

 

10) E a experiência nos grupos?

Rica, viva, por vezes tensa, como todo espaço de criação. Há trocas, há aprendizagens, e há também diferenças. Eu próprio sei que caminho com uma visão muito pessoal do Poetrix.

 

11) O Poetrix pode ser ensinado?

É essa a pergunta que me move. Com Paula Cobucci, estudamos a evolução do gênero, as suas formas, as práticas nas plataformas. Procuramos construir um modelo didático que permita explorar o seu potencial na aprendizagem da língua e da criação literária.

 

12) E o seu papel na Academia?

Hoje participo na direção, mas o meu desejo é simples: explorar o Poetrix como instrumento de aprendizagem, da língua, da escuta, da sensibilidade.

 


13) O que pode a arte num mundo inquieto?

No meu caso, humaniza-me. Devolve-me ao essencial quando tudo à volta parece disperso. A arte é uma forma de reencontro: comigo mesmo, com os outros, com aquilo que ainda resiste ao ruído… é uma resistência contra a guerra e a sem-razão, contra a ausência de lógica ou explicação aparente do que o mundo está a viver.

Ela desacelera o tempo, cria um espaço de escuta e de atenção, onde o sentido pode emergir sem pressa. Num mundo fragmentado e em guerra, a arte recompõe, não resolve, mas ilumina. Permite nomear o indizível, dar forma à inquietação, transformar a experiência em partilha.

Também me ensina a olhar: a ver o detalhe, o quase invisível, aquilo que passa despercebido na pressa do quotidiano. E, nesse gesto, há já uma ética habermassiana, uma maneira de estar mais atento, mais disponível, mais humano.

A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o habita. E talvez isso seja, hoje, uma das formas mais necessárias de resistência.

 

14) Que livros, que caminhos de escrita o definem?

A biblioteca completa como diria Borges. E uma perspectiva teórica o interacionismo sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart.

 

15) Há uma obra que gostaria de destacar?

Mas que obras autores: Ausias March, Joan Salvat-Papasseit, Joan Brossa, Vicent Andrés Estellés por citar alguns poetas da minha lingua primeira. Pessoa em português. Garcia Lorca e meu amigo José Cereijo em espanhol. Tantos poetas e tantas obras… os sonetos de Borges.

 

16) O mundo acelera. Estamos a perder o equilíbrio?

 

HOJE

 

o mundo acelera

o equilíbrio não se perde

desaprende-se

 

17) Que vozes o acompanham, que autores o atravessam?

Na verdade, as minhas vozes interiores são polifônicas: um concerto onde ressoam os meus ancestrais, as minhas leituras, a música que me habita.

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AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028

Dirce Carneiro – acadêmica, cadeira 26

 

7 comentários:

DIRCE CARNEIRO disse...

Que linda postagem, Diana Pilatti. Parabéns ao ser humano especial Joaquim Dolz e ao poeta Ximo Dolz, à AIP e a todos nós que podemos conviver com esta pessoa de mente brilhante que é Ximo Dolz. De uma generosidade ímpar, ao compartilhar conosco o seu saber e experiência, ele dá luz a conceitos incipientes que expressamos, imprime sabedoria a frases miúdas, eleva a um patamar inusitado os nossos debates e embates, sempre com a serenidade própria dos mestres. Parabéns, felicidades, que a poesia continue sendo sua companheira fiel, no caminhar pela vida, no olhar para as flores, no sentir da neve, no queimar do sol, no degustar das delícias do lar, no permear as suas relações, no viver a alegria e a dor, nos aprendizados sem fim, sua arte e ciência - Vida.

Margarida Montejano disse...

Que alegria conhecer um pouco mais do poeta Ximo Dolz, homenageado neste dia de aniversário de vida! Parabéns, querido amigo e irmão dos versos breves, das reflexões longas e profundas e de uma força voraz na defesa do que acredita! Você, a sua Macondo, a polifonia das vozes e os sentidos do mundo em três versos, me ajudam a pensar o Poetrix.
Linda entrevista, Dirce Carneiro! Parabéns! Abraços

Paula Cobucci disse...

Parabéns pela belíssima entrevista com Joaquim Dolz (Ximo Dolz), que revela, com sensibilidade e rigor, os diálogos fecundos entre didática das línguas e criação poética.

Recebo com especial alegria a menção ao momento em que nosso encontro em Genebra possibilitou a sua aproximação com o Poetrix — um gesto que, como a própria entrevista evidencia, abriu caminhos fecundos de investigação, escrita e partilha no âmbito da Academia Internacional Poetrix.

É muito significativo ver como esse primeiro contato se desdobra hoje em um trabalho consistente, que articula literatura, formação de professores e reflexão didática.

A publicação da entrevista na data de seu aniversário torna este momento ainda mais simbólico. Querido Joaquim, receba também meus parabéns e votos de um novo ciclo repleto de saúde, inspiração e novas criações.

Com gratidão e estima.
Paula Cobucci

José de Castro disse...

Que entrevista maravilhosa! Parabéns, Dirce, pelas perguntas e também ao entrevistado pelas respostas tão significativas que sempre nos trazem lições. Amei a afirmação: "A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o habita." Grande abraço, mestre Ximo Dolz...

Dirce Carneiro disse...

Grata pela leitura e comentário, poeta José de Castro. Foi muito gratificante construir este trabalho com mestre Dolz.

Dirce Carneiro disse...

Gratidão, querida poeta Margarida Montejano.

Dirce Carneiro disse...

Querida Paula Cobucci, viu onde alcançou aquele seu gesto de nos mostrar o professor Dolz com todo entusiasmo, falando do poetrix à sua colega de faculdade, em Genebra? Ele foi convidado para o Grupo Selo Poetrix e não é que aceitou? Era 2023 e desde então ele sempre nos surpreende e desafia. Gratidão a você, Paula e ao Professor Joaquim Dolz e poeta Ximo Dolz.