sexta-feira, 5 de junho de 2026

Entrevista com Bianca Ribeiro Reis

ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX

ENTREVISTA: ACADÊMICA BIANCA RIBEIRO REIS

CADEIRA 19, PATRONO GUILHERME DE ALMEIDA

Entrevista a Dirce Carneiro



Conte um pouco sobre sua trajetória na poesia: quando e como você começou a escrever?

Amo escrever. Desde sempre. Na adolescência, mantinha diários e dedicava poemas para familiares e amigos. Escolhi marketing como profissão em grande parte por conta da minha paixão pela escrita e pela criatividade. Construí minha trajetória com foco em comunicação e copywriting.  

A poesia aflorava de vez em quando, eu nunca mantive uma rotina de escrita. Daí, durante a pandemia (final de 2020), conheci o haikai e o poetrix e, de cara, me identifiquei com o gênero minimalista. Compus meu primeiro poetrix para participar do Concurso da Confraria Poetrix e fui premiada com o terceiro lugar. Nunca mais larguei esse terceto cheio de bossa; tão conciso e, ao mesmo tempo, imenso.


Cite um livro que marcou sua infância ou adolescência.

Na infância me lembro de devorar a coleção do Sítio do Pica Pau Amarelo do Monteiro Lobato e ter amado A Fada que tinha ideias, O Menino do Dedo Verde.

Já o livro Flicts do Ziraldo me marcou demais, porque é poesia pura. E continua a me emocionar a cada leitura.


Como a vida em uma grande cidade influencia sua escrita?

O Rio de Janeiro é meu palco: o mar, a agitação, a descontração, os ritmos, a desigualdade social. Tudo é repertório. 

Tenho uma série de poemas que capturam as dores e delícias de viver no Rio e no Brasil. E muitos poetrix carregam uma dose de crítica social.


Como é seu processo criativo? Tem um ritual para escrever? Tem períodos em que não produz? 

Não tenho um ritual, nem regularidade. Quando um tema é proposto numa ciranda, começo buscando memórias e tentando identificar que sentimento elas despertam. A partir daí, construo os versos, focando em ritmo e regularidade métrica. O título é, quase sempre, pensado no final. Adoro explorar expressões da moda, neologismos, figuras de linguagem e duplos sentidos.

Também é bem comum que poemas surjam como um estalo, e geralmente contendo rima; é um fluxo natural, nada proposital, como se eu pensasse os textos com um andamento quase musical.

Épocas de pouca produção são, na verdade, a regra para mim. Só em raros momentos a poesia jorra, e vem quase incontrolável, como se com vida própria. 


De onde vem sua inspiração para escrever? Dê um exemplo recente.

Tudo pode funcionar como gatilho. A natureza, as emoções, notícias, lembranças, acontecimentos diários, desafios, relacionamentos. A inspiração vem da conjunção de contemplação com imaginação. Acho que a sensibilidade no olhar me ajuda também na arte da fotografia, que é um grande hobby que eu cultivo.

Exemplo: 

O intenso volume de notícias e debates atuais sobre feminicídio originou o seguinte poetrix:


ATÉ QUE A SORTE OS SEPARE


ela disse ‘fim’

ele não aceitou

história de terror!


Você revisa muito seus poemas? Qual é o maior desafio no processo de edição?

Sim, sou obcecada pela métrica, pelo ritmo, pela síntese e pelo jogo de palavras. 

É bem frequente eu lapidar os poemas, cortando excessos, procurando pelo elemento surpresa, buscando o título ideal.

Inclusive, acontece muito de alterar alguma parte ou trocar uma palavra de poetrix antigos, quando os revisito. 

Acho que o maior desafio de todo poetrixta é conseguir provocar um salto ou susto, mas há enorme prazer nessa busca.

As escritoras Andréa Abdala, Bianca Ribeiro Reis e Lílian Maial, no lançamento dos livros “Pérolas Poetrix” e “Antologia Poetrix 8 – Infinito”.

Quais temas recorrentes aparecem na sua poesia e por que eles importam?

Meus poemas falam de relações humanas, dilemas emocionais, desafios do cotidiano e temas da sociedade contemporânea, de forma leve, lúdica e, por vezes, irônica.

Poetizar o dia a dia funciona como um suporte para lidar com as dificuldades, ao mesmo tempo em que resgatar memórias e acessar sentimentos ajuda no autoconhecimento.


Cite alguns de seus poetrix preferidos.

Gosto bastante deste abaixo, por considerar que sintetiza a essência do poetrix - é leve, enxuto, rítmico, evoca visibilidade, possui multiplicidade, tem título criativo com jogo de palavras, figura de linguagem e um ‘susto’ no final. 


MÁGOAS DE MARÇO

o tempo fecha

o clima fica estranho

desaguamos


Outros de que gosto bastante:


SOFREVIVENDO

bolso que esvazia

guerra que amedronta

segurando as pontas



ESTRANHA TRAMA

te dei linha

só me enrolou

ai de nós!


Quais autores a moldaram mais, e como?

Minha poesia dialoga com:

Paulo Leminski – pela brevidade urbana e irônica.

Adélia Prado – pela forma de transformar o cotidiano em lirismo.

Guilherme de Almeia - pelo ritmo rimado.

Além destes poetas, sou admiradora de Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Millôr Fernandes, Carolina de Jesus e os contemporâneos Lucão (Luca Brandão), Tchello d'Barros e Rupi Kaur.

Grandes nomes da música também me influenciaram, em especial os compositores: Cazuza, Rita Lee, Vinicius de Moraes, Leoni, Marisa Monte, Renato Russo.


Como você encara o papel da arte na nossa vida, na sociedade, no Brasil e no mundo?

Arte é respiro e é resistência.

A poesia é capaz de provocar reflexões, de inspirar, de induzir novas perspectivas, de revelar beleza no caos.

Parafraseando Ferreira Gullar, costumo dizer que “A arte insiste porque a vida nos castra”.


Como você vê o impacto da inteligência artificial na literatura e nas artes poéticas?

Não tem como fugir da Inteligência Artificial. Vejo a IA como uma aliada do processo criativo, um apoio para desenhar caminhos, instigando conceitos e formatos diferentes, provocando um novo olhar. Nunca para substituir o escritor, já que personalidade e vivência é que tornam uma obra ressonante, impactante, com alma.

Os grandes desafios são a ética e os direitos autorais: a IA treina em obras existentes sem permissão, gerando conteúdos que misturam estilos alheios sem crédito ou compensação aos criadores originais. Isso levanta questões sobre propriedade intelectual, plágio involuntário e a valorização do trabalho humano. 


Qual o próximo projeto literário que a anima e por quê?

Publicar meu livro solo de poemas, que já está, inclusive, estruturado. Participei de diversas antologias, mas ainda não lancei uma publicação só minha. Seria um grande sonho lançar através de uma editora conceituada.

Outras metas: escrever um livro infantil e me aventurar na crônica.


Interage nas redes sociais com sua escrita?

Além grupo da AIP, participo dos grupos Selo Poetrix, administrado pelos acadêmicos Diana Pilatti e José de Castro, e Imersão Literária A Palavra que Está. 

Publico meus poetrix no Instagram @poesia.lab

 

Que conselhos daria para poetas iniciantes que sonham em publicar?

Exercite o olhar, tente encarar o mundo com a curiosidade de uma criança, honre suas experiências, não force lirismo. 

Domine a gramática, estude autores reconhecidos e abrace referências, mas escreva como você. E divirta-se. 😊


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Academia Internacional Poetrix – AIP

Gestão Uni_Versos (2026/2028)

Entrevista por Dirce Carneiro

Acadêmica Cadeira 30


2 comentários:

Aline Pacheco disse...

Acompanho com muita admiração o trabalho da Bianca Reis. Sempre um poetrix que me faz refletir sobre um sentimento, um acontecimento, um momento da vida. Já estou ansiosa pelo lançamento do livro solo que, com certeza, a partir do que li, nesta entrevista, conhecendo mais sobre ela e o processo de criação, será meu livro de cabeceira!

Dirce Carneiro disse...

Obrigada Bianca Reis. Admiro sua poesia nos seus poemas breves e surpreendentes.