ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX
ENTREVISTA COM ACADÊMICA MARGARIDA
MONTEJANO
CADEIRA 29
Entrevista por Ximo Dolz
MARGARIDA MONTEJANO, A VOZ DA LOBA
Os
Poetrix e os contos de Margarida Montejano, da cadeira 29 da AIP, revelam uma
literatura de resistência: poesia feminista, empoderada, que pulsa e reivindica
a voz da mulher, o aurido sensível da loba que desperta. Catadora de sentidos e
palavras, como sua patrona Mardilê Friedrich Fabre, Margarida transforma cada
verso em território de liberdade e invenção. É autora dos livros Fio de
Prata (contos), Chão Ancestral(poesia), A Poeta e a Flor, A Poeta e a Sabiá,
(infantojuvenis) e O Silêncio da Loba, contos.
O
entrevistador sente-se irmão de Margarida: ambos entraram na Academia juntos e
compartilham a mesma paixão pelos jogos de linguagem e pela concisão enigmática
do Poetrix. Esta conversa nasce desse laço e da vontade de explorar o universo
singular de sua escrita e de descobrir o enigma do seu processo criativo.
01.
Como descobriu o Poetrix?
O
Poetrix foi-me apresentado pela poeta e amiga Valéria Pisauro, num momento em
que eu estava com o braço quebrado e impossibilitada de trabalhar. Valéria
deu-me todas as coordenadas, da teoria à prática, e, assim, encantei-me com a
arte de produzir poesia pelo prisma do minimalismo. Valéria indicou-me leituras
e acompanhou-me até que eu caminhasse sozinha. Sou grata a ela, minha madrinha
e incentivadora da arte literária! Minimalismo, verso curto, paixão que nasce.
02.
Quais autores e quais ecos marcaram sua escrita?
Tornei-me uma leitora contumaz na adolescência. Queria ler e entender tudo e a biblioteca pública era meu refúgio, quando podia, pois já dividia o tempo entre escola à noite e trabalho, desde os 14 anos. Encantava-me com a escrita de Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz, a poesia de Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, as letras de música de Chico Buarque. Dentre outras e outros escritores, li e reli três vezes Cem Anos de Solidão, de García Márquez, e senti-me personagem de sua obra, pois o povoado Macondo, naquela época, parecia-me semelhante a algum vilarejo desse nosso imenso Brasil.
03. A propósito da sua origem e infância: lugares que guarda na memória e que pulsam na sua escrita.
Nasci
em Mogi Guaçu/SP, em meio à ditadura militar, e formei-me pedagoga quando
aquele período dava seus últimos respiros. A literatura da Teologia da
Libertação, à época, aliada a professores críticos do sistema político-econômico,
formou-me politicamente. Talvez o espírito inquieto e a ânsia pela mudança
tenham alicerçado minhas bases na esperança de um tempo livre de opressão, e
esse ideal permanece em mim até hoje. A universidade e a literatura
acenderam-me luzes.
04.
Como entrelaça literatura, escrita, ofício e vida?
Então…
a vida se inscreve nesta labuta infinita de construção e reconstrução diária. A
leitura de mundo que vamos tecendo convida-nos a escrevê-la e, assim, trilhamos
o caminho coletando elementos, cenários e inspirações para a escrita. Trabalho,
família, problemas do cotidiano vão tecendo o roteiro e, quando a gente se dá
conta, fez um Poetrix que, numa abordagem minimalista, resume:
ESCRITURAS DA VIDA
Pedras do caminho
pés, coração e mãos calejados
histórias afetivas no prelo
05.
Mulher que reivindica sua voz: qual a sua relação com o universo feminino das
letras?
Minha
voz na escrita busca o eco da voz silenciada das mulheres que me antecederam,
que me constituíram e me fazem existir no movimento das horas, dos dias. Sou
grata a elas porque me inspiram a gritar, a denunciar e a continuar me
expressando pelas múltiplas possibilidades da escrita. Sigo a desafiar os
códigos linguísticos e a misturar palavras, sentimentos, versos e prosa, mas
sempre vinculados ao compromisso com a ética e com a esperança. A luta pela
vida e contra a misoginia formam-me cotidianamente e tornaram-se a razão da
minha existência.
06.
Qual é a sua filosofia da vida? O que a existência lhe ensinou?
Aprendi
que desentendimentos, brigas, discussões, violência não cabem em lugar nenhum,
pois todas estas ações culminam em guerra, e nela não há vencedor. Minha
filosofia de vida é, portanto, dialógica. Pela prática do diálogo é possível
promover, semear, cultivar a paz por onde formos, por onde passarmos. Penso que
o que nos move não pode ser diferente desse princípio, pois, se estamos em paz,
é sinal de que não nos falta nada.
07.
Como vê o legado do minimalismo, sua força?
A
literatura minimalista traduz o tempo em que estamos vivendo. Tempo fluido e
instantâneo, exigente de objetividade. Assim, esse movimento propõe desafiar a
construção do conhecimento na mesma lógica: a da aprendizagem da escrita e da
leitura, fundamentadas em pensamentos e mensagens que expressam clareza, brevidade
e leveza. Nesta modalidade literária, o sujeito que escreve torna-se capaz de
se expressar a partir de um olhar criterioso sobre a realidade à sua volta e,
com poucas palavras ou versos, descrever um cenário, uma história, um fato.
Provoca no leitor a análise crítica, ética e criativa do que o autor pretendeu
dizer objetivamente. Dizendo de outro modo, faz os sujeitos que leem e escrevem
pensarem e produzirem o entendimento sobre o objetivo do texto e da literatura
com a precisão que o minimalismo propõe.
08. Entre razão e criação: como são os processos, rituais, bloqueios e florescimentos da sua escrita?
A
realidade, o envoltório, a rudeza das relações humanas inspiram-me a escrever.
Como escritora feminista, sou provocada pelos fatos do cotidiano que ferem a
vida e a dignidade humana. A princípio, sacodem-me. Preciso repensar,
amadurecer… A ideia sobre o fato, o dado, a situação, fica guardada,
gestando-se em meu pensamento até que reúno energia e leituras complementares
para transpô-la às teclas do computador, materializando-a. Os bloqueios
geralmente são gerados por falta de tempo para leituras, para debates de ideia.
Mas logo vem o cotidiano e me lança novamente desafios à produção escrita.
09.
O que representa para você a Academia? Como se sente como acadêmica?
Percebo
a importância deste espaço para a expansão do Poetrix no Brasil e mundo afora.
Contudo, ainda não consigo me sentir acadêmica. Talvez o processo ainda esteja
em construção em mim. Minha participação ainda está em desenvolvimento. Pretendo
estudar mais o Poetrix, tornar-me uma acadêmica presente e que minha energia
seja potente neste espaço.
10.
O que gostaria de implementar na Academia?
Levar
o Poetrix para os cursos de licenciatura e para grandes eventos (feiras,
bienais…) com oficinas e participação em mesas.
11. Em que coletivos literários participa?
Participo
de vários coletivos literários, dentre eles Feminário Conexões; Elas Publicam;
Escreva, Garota; Mulheres que Escrevem; Coletivo Andorinhas que escrevem;
Mulherio das Letras de São Paulo, dentre outros. Para além dos coletivos que me
estimulam a ler e a escrever, participo também de Clube de Leituras, cuja base
se fundamenta no movimento internacional Leia Mulheres, instituído em 2014
e, no Brasil, em 2015. Podemos dizer que essa ação catalisadora,
transformou o ato individual de ler em um ato político e coletivo,
forçando editoras a resgatarem clássicos esquecidos e a investirem em vozes
contemporâneas diversa, dentre elas, a feminina. Este movimento visa incentivar
a leitura, o debate e a divulgação de obras escritas por mulheres, combatendo a
desigualdade de gênero no mercado editorial. Segundo dados publicados na
imprensa, em 2025 as mulheres lideraram o mercado editorial, apontando que 62%
das pessoas que compraram livros foram mulheres. Enfim, participar de coletivos
femininos fortalece a nossa luta pela democracia na produção literária e em
todos os espaços, assim como reitera a todas e todos da importância, no tempo
presente, de ler mulheres.
12.
Você escreve contos e Poetrix: como se cruzam, se respondem e se completam?
Minha
prática literária, ainda em construção, sempre foi a da poesia e da prosa e não
imaginava ser capaz de produzir escrita minimalista. Aprendi que posso escrever
e ser tão intensa em três versos, quanto num conto, num poema longo. O Poetrix
desafia-me e quando leio ou produzo versos desta modalidade literária, sinto
que eles me convidam à reflexão e à continuidade de escrever sobre os sentidos
que transportam. Penso que a arte literária está em profunda complementariedade
e em sintonia na construção do bom, do bem e do belo.
13.
Finalmente, qual é o papel da Arte na vida?
A
arte é a esperança de salvação da humanidade. Por ela é possível falar com o
corpo e a alma, sem a emissão de sons; fechar os olhos e senti-la pelos poros;
tocá-la em pensamentos, liberar a emoção. A arte ressignifica nossa humanidade
porque anuncia a grandeza da criação humana e carrega em si o potencial para
denunciar, com propósito ético, criativo, crítico, tudo aquilo que é letal à
vida e desumaniza nossa existência. A arte salva!
______________________________
Academia
Internacional Poetrix
Gestão
Uni_Versos (2026/2028)
Entrevista
por Ximo Dolz
Acadêmico
– cadeira 30




3 comentários:
Margarida Montejano inaugura as entrevistas da Gestão Uni_Versos (2026/2028). No mês de março-M de mulher. Tema de que se ocupa Margarida Montejano, na sua poesia, na sua escrita, nos seus atos cotidianos. Por isso a homenageamos com esta publicação. E nela, a homenagem também a todas as mulheres. E a escrita de Margarida é como sua voz, nos acolhe, nos cativa, nos leva a outros lugares de reflexão. E ler aqui é conhecer mais dessa mulher admirável. Parabéns, Margarida!
Margarida Montejano inaugura as entrevistas da Gestão Uni_Versos (2026/2028). No mês de março-M de mulher. Tema de que se ocupa Margarida Montejano, na sua poesia, na sua escrita, nos seus atos cotidianos. Por isso a homenageamos com esta publicação. E nela, a homenagem também a todas as mulheres. E a escrita de Margarida é como sua voz, nos acolhe, nos cativa, nos leva a outros lugares de reflexão. E ler aqui é conhecer mais dessa mulher admirável. Parabéns, Margarida!
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