terça-feira, 31 de março de 2026

Entrevista com Margarida Montejano

 


ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX

ENTREVISTA COM ACADÊMICA MARGARIDA MONTEJANO

CADEIRA 29

 

Entrevista por Ximo Dolz

 

MARGARIDA MONTEJANO, A VOZ DA LOBA

 

Os Poetrix e os contos de Margarida Montejano, da cadeira 29 da AIP, revelam uma literatura de resistência: poesia feminista, empoderada, que pulsa e reivindica a voz da mulher, o aurido sensível da loba que desperta. Catadora de sentidos e palavras, como sua patrona Mardilê Friedrich Fabre, Margarida transforma cada verso em território de liberdade e invenção. É autora dos livros Fio de Prata (contos), Chão Ancestral(poesia), A Poeta e a Flor, A Poeta e a Sabiá, (infantojuvenis) e O Silêncio da Loba, contos.

O entrevistador sente-se irmão de Margarida: ambos entraram na Academia juntos e compartilham a mesma paixão pelos jogos de linguagem e pela concisão enigmática do Poetrix. Esta conversa nasce desse laço e da vontade de explorar o universo singular de sua escrita e de descobrir o enigma do seu processo criativo.

 

01. Como descobriu o Poetrix?

O Poetrix foi-me apresentado pela poeta e amiga Valéria Pisauro, num momento em que eu estava com o braço quebrado e impossibilitada de trabalhar. Valéria deu-me todas as coordenadas, da teoria à prática, e, assim, encantei-me com a arte de produzir poesia pelo prisma do minimalismo. Valéria indicou-me leituras e acompanhou-me até que eu caminhasse sozinha. Sou grata a ela, minha madrinha e incentivadora da arte literária! Minimalismo, verso curto, paixão que nasce.

 

02. Quais autores e quais ecos marcaram sua escrita?

Tornei-me uma leitora contumaz na adolescência. Queria ler e entender tudo e a biblioteca pública era meu refúgio, quando podia, pois já dividia o tempo entre escola à noite e trabalho, desde os 14 anos. Encantava-me com a escrita de Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz, a poesia de Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, as letras de música de Chico Buarque. Dentre outras e outros escritores, li e reli três vezes Cem Anos de Solidão, de García Márquez, e senti-me personagem de sua obra, pois o povoado Macondo, naquela época, parecia-me semelhante a algum vilarejo desse nosso imenso Brasil.

 


03. A propósito da sua origem e infância: lugares que guarda na memória e que pulsam na sua escrita.

Nasci em Mogi Guaçu/SP, em meio à ditadura militar, e formei-me pedagoga quando aquele período dava seus últimos respiros. A literatura da Teologia da Libertação, à época, aliada a professores críticos do sistema político-econômico, formou-me politicamente. Talvez o espírito inquieto e a ânsia pela mudança tenham alicerçado minhas bases na esperança de um tempo livre de opressão, e esse ideal permanece em mim até hoje. A universidade e a literatura acenderam-me luzes.

 

04. Como entrelaça literatura, escrita, ofício e vida?

Então… a vida se inscreve nesta labuta infinita de construção e reconstrução diária. A leitura de mundo que vamos tecendo convida-nos a escrevê-la e, assim, trilhamos o caminho coletando elementos, cenários e inspirações para a escrita. Trabalho, família, problemas do cotidiano vão tecendo o roteiro e, quando a gente se dá conta, fez um Poetrix que, numa abordagem minimalista, resume:

 

ESCRITURAS DA VIDA

 

Pedras do caminho

pés, coração e mãos calejados

histórias afetivas no prelo

 

05. Mulher que reivindica sua voz: qual a sua relação com o universo feminino das letras?

Minha voz na escrita busca o eco da voz silenciada das mulheres que me antecederam, que me constituíram e me fazem existir no movimento das horas, dos dias. Sou grata a elas porque me inspiram a gritar, a denunciar e a continuar me expressando pelas múltiplas possibilidades da escrita. Sigo a desafiar os códigos linguísticos e a misturar palavras, sentimentos, versos e prosa, mas sempre vinculados ao compromisso com a ética e com a esperança. A luta pela vida e contra a misoginia formam-me cotidianamente e tornaram-se a razão da minha existência.

 

06. Qual é a sua filosofia da vida? O que a existência lhe ensinou?

Aprendi que desentendimentos, brigas, discussões, violência não cabem em lugar nenhum, pois todas estas ações culminam em guerra, e nela não há vencedor. Minha filosofia de vida é, portanto, dialógica. Pela prática do diálogo é possível promover, semear, cultivar a paz por onde formos, por onde passarmos. Penso que o que nos move não pode ser diferente desse princípio, pois, se estamos em paz, é sinal de que não nos falta nada.

 

07. Como vê o legado do minimalismo, sua força?

A literatura minimalista traduz o tempo em que estamos vivendo. Tempo fluido e instantâneo, exigente de objetividade. Assim, esse movimento propõe desafiar a construção do conhecimento na mesma lógica: a da aprendizagem da escrita e da leitura, fundamentadas em pensamentos e mensagens que expressam clareza, brevidade e leveza. Nesta modalidade literária, o sujeito que escreve torna-se capaz de se expressar a partir de um olhar criterioso sobre a realidade à sua volta e, com poucas palavras ou versos, descrever um cenário, uma história, um fato. Provoca no leitor a análise crítica, ética e criativa do que o autor pretendeu dizer objetivamente. Dizendo de outro modo, faz os sujeitos que leem e escrevem pensarem e produzirem o entendimento sobre o objetivo do texto e da literatura com a precisão que o minimalismo propõe.

 


08. Entre razão e criação: como são os processos, rituais, bloqueios e florescimentos da sua escrita?

A realidade, o envoltório, a rudeza das relações humanas inspiram-me a escrever. Como escritora feminista, sou provocada pelos fatos do cotidiano que ferem a vida e a dignidade humana. A princípio, sacodem-me. Preciso repensar, amadurecer… A ideia sobre o fato, o dado, a situação, fica guardada, gestando-se em meu pensamento até que reúno energia e leituras complementares para transpô-la às teclas do computador, materializando-a. Os bloqueios geralmente são gerados por falta de tempo para leituras, para debates de ideia. Mas logo vem o cotidiano e me lança novamente desafios à produção escrita.

 

09. O que representa para você a Academia? Como se sente como acadêmica?

Percebo a importância deste espaço para a expansão do Poetrix no Brasil e mundo afora. Contudo, ainda não consigo me sentir acadêmica. Talvez o processo ainda esteja em construção em mim. Minha participação ainda está em desenvolvimento. Pretendo estudar mais o Poetrix, tornar-me uma acadêmica presente e que minha energia seja potente neste espaço.

 

10. O que gostaria de implementar na Academia?

Levar o Poetrix para os cursos de licenciatura e para grandes eventos (feiras, bienais…) com oficinas e participação em mesas.



 11. Em que coletivos literários participa?

Participo de vários coletivos literários, dentre eles Feminário Conexões; Elas Publicam; Escreva, Garota; Mulheres que Escrevem; Coletivo Andorinhas que escrevem; Mulherio das Letras de São Paulo, dentre outros. Para além dos coletivos que me estimulam a ler e a escrever, participo também de Clube de Leituras, cuja base se fundamenta no movimento internacional Leia Mulheres, instituído em 2014 e, no Brasil, em 2015. Podemos dizer que essa ação catalisadora, transformou o ato individual de ler em um ato político e coletivo, forçando editoras a resgatarem clássicos esquecidos e a investirem em vozes contemporâneas diversa, dentre elas, a feminina. Este movimento visa incentivar a leitura, o debate e a divulgação de obras escritas por mulheres, combatendo a desigualdade de gênero no mercado editorial. Segundo dados publicados na imprensa, em 2025 as mulheres lideraram o mercado editorial, apontando que 62% das pessoas que compraram livros foram mulheres. Enfim, participar de coletivos femininos fortalece a nossa luta pela democracia na produção literária e em todos os espaços, assim como reitera a todas e todos da importância, no tempo presente, de ler mulheres.

 

12. Você escreve contos e Poetrix: como se cruzam, se respondem e se completam?

Minha prática literária, ainda em construção, sempre foi a da poesia e da prosa e não imaginava ser capaz de produzir escrita minimalista. Aprendi que posso escrever e ser tão intensa em três versos, quanto num conto, num poema longo. O Poetrix desafia-me e quando leio ou produzo versos desta modalidade literária, sinto que eles me convidam à reflexão e à continuidade de escrever sobre os sentidos que transportam. Penso que a arte literária está em profunda complementariedade e em sintonia na construção do bom, do bem e do belo.

 

13. Finalmente, qual é o papel da Arte na vida?

A arte é a esperança de salvação da humanidade. Por ela é possível falar com o corpo e a alma, sem a emissão de sons; fechar os olhos e senti-la pelos poros; tocá-la em pensamentos, liberar a emoção. A arte ressignifica nossa humanidade porque anuncia a grandeza da criação humana e carrega em si o potencial para denunciar, com propósito ético, criativo, crítico, tudo aquilo que é letal à vida e desumaniza nossa existência. A arte salva!

 

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Academia Internacional Poetrix

Gestão Uni_Versos (2026/2028)

Entrevista por Ximo Dolz

Acadêmico – cadeira 30

3 comentários:

Anônimo disse...

Margarida Montejano inaugura as entrevistas da Gestão Uni_Versos (2026/2028). No mês de março-M de mulher. Tema de que se ocupa Margarida Montejano, na sua poesia, na sua escrita, nos seus atos cotidianos. Por isso a homenageamos com esta publicação. E nela, a homenagem também a todas as mulheres. E a escrita de Margarida é como sua voz, nos acolhe, nos cativa, nos leva a outros lugares de reflexão. E ler aqui é conhecer mais dessa mulher admirável. Parabéns, Margarida!

Dirce Carneiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dirce Carneiro disse...

Margarida Montejano inaugura as entrevistas da Gestão Uni_Versos (2026/2028). No mês de março-M de mulher. Tema de que se ocupa Margarida Montejano, na sua poesia, na sua escrita, nos seus atos cotidianos. Por isso a homenageamos com esta publicação. E nela, a homenagem também a todas as mulheres. E a escrita de Margarida é como sua voz, nos acolhe, nos cativa, nos leva a outros lugares de reflexão. E ler aqui é conhecer mais dessa mulher admirável. Parabéns, Margarida!