sábado, 23 de maio de 2026
Dois Grafitrix de Andréa Abdala
Última atualização em:
Três Poetrix de Oswaldo Martins
PAZ E AMOR, AMOR E PAZ
lar, calmo lar, pleno lar
lugar de família estar
morada do verbo amar
Oswaldo Martins
LEMBRANÇAS DUM QUARTO ESCURO
mirada janela aberta
rastro triste de amor partido
lar morto, partido lar
Oswaldo Martins
COM BROCHURA O MACHO DANÇA(!?)...
dança bambo e sem pujança
mole porque então balança
vera perda da esperança(!?)
Oswaldo Martins
Salvador, 21/05/2026
Última atualização em:
Dois Grafitrix de José de Castro
Última atualização em:
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Poetrix bilíngue de Diana Pilatti
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| Orides Fontela (1940–1998) |
ORIDES' PASSION
hypnotic Narcissus
liquid kiss
vertigo
Diana Pilatti
PAIXÕES DE ORIDES
Narciso hipnótico
um beijo líquido
vertigem
Diana Pilatti
A ROOF OF KEYS
peaceful rain
nocturnal symphony
angels dream
Diana Pilatti
TELHADO DE TECLAS
chuva mansa
sinfonia noturna
sonham os anjos
Diana Pilatti
Do livro Petite Synestesias: chosen Poetrix [Pequenas Sinestesias: Poetrix escolhidos], de Diana Pilatti, com Tradução de Sarah Muricy e Revisão de José de Castro, publicado em 2025, pela Editora Popular Venas Abiertas, na VI Coleção do Mulherio das Letras.
Imagem: Orides Fontela, Google.
Última atualização em:
terça-feira, 12 de maio de 2026
Entrevista com o Acadêmico Paulo Soroka
ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP
ENTREVISTA COM O ACADÊMICO PAULO SOROKA– CADEIRA 33
A travessia de Paulo Soroka: entre sombras e luz, a leveza conquistada
Paulo Soroka, académico nº 33 da AIP, patrono Thiago de Mello, amazônida de palavras e rios. Eleito na última fornada de novos académicos, em dezembro de 2025, surge com um sorriso que carrega o brilho da sua cidade natal, Porto Alegre: luz que atravessa o olhar e anuncia encontros entre a palavra e o silêncio.
Entre a clínica e a poesia, Soroka caminha delicadamente: médico psiquiatra, formado em psicanálise, poeta que escuta o eco do invisível. Membro ativo da Confraria Ciranda Poetrix, participou de várias coletâneas, alternando o rigor da palavra escolhida com a pausa do silêncio, encontrando na simplicidade minimalista a grandeza da expressão.
Um poema por dia para fazer a travessia é o título de um dos três livros que escreveu durante a pandemia. Pode nos falar dessa travessia? Como cada dia, cada verso, se tornou ponte entre o peso e a leveza da palavra?
O verso tornou-se uma ponte. Havia temor e ausência, mas as palavras abriam frestas e traziam a leveza possível. Não era uma leveza descuidada, mas sim conquistada, como quem atravessa um rio pisando em pedras invisíveis.
Assim, um poema a cada dia surgiu essencialmente como necessidade, como gesto de resistência.
«A luz nasce no instante em descobrimos que somos mais que a nossa sombra.» Esta frase de Rabindranath Tagore guiou o seu discurso de posse. Que sombra precisou reconhecer, e que luz se acendeu ao escolher esse farol para o seu caminho?
Creio que a sombra que precisei reconhecer foi a da vulnerabilidade, como dolorosa experiência vivida. A sombra é também a dos próprios limites: da palavra, do corpo, do tempo. Entretanto, é nesse reconhecimento que algo se ilumina: a sombra não é apenas negação. A sombra é um contorno que revela mais do que a gente espera. Ao aceitar a sua existência, a palavra torna-se um potente farol. A luz que se acende é a de um saber que, mesmo frágil, permite a descoberta de sentidos e, talvez, o compartilhamento de silêncios — é assim que a experiência se transforma em gesto poético.
O senhor reivindica-se como cidadão de Porto Alegre, cidade de Mário Quintana, de Elis Regina, de ruas e cantos que sussurram versos. Como ecoam, em suas palavras, as memórias e paisagens da sua cidade natal?
Há também ecos de uma tradição sensível. Em Mário Quintana, aprendi a profundidade daquilo que é simples; em Elis Regina, a intensidade que transborda emoção. Ambos, à sua maneira, mostram que a simplicidade pode tangenciar o infinito.
Minhas palavras estão impregnadas de algo dessas paisagens: uma melancolia discreta, um sutil olhar sobre o cotidiano, uma escuta do que é mínimo.
Que lugares guardam a memória da juventude que pulsa, dos primeiros encantos e dos primeiros versos?
Os lugares da juventude não se restringem ao aspecto físico. Acredito que tais lugares são, sobretudo, espaços internos. Ainda assim, algumas paisagens permanecem como pontos de ancoragem da memória: ruas percorridas sem urgência, bibliotecas silenciosas, praças onde o tempo parecia mais dilatado.
Recordo também os lugares de escuta — salas de aula, encontros informais, conversas que se estendiam sem propósito definido. Ali, os primeiros versos surgiam quase como confidências, tentativas de nomear aquilo que ainda não sabia dizer plenamente. A juventude pulsa nessas experiências iniciais, feitas de intensidade e de inocência diante do mistério da vida.
Como descobriu o Poetrix e o que o fascinou nesse diálogo entre silêncio e palavra mínima?
Descobri o Poetrix como quem encontra uma forma já suspeitada. Havia, em mim, uma inclinação para o essencial, para a palavra depurada. O Poetrix surgiu como um espaço onde o silêncio não é ausência, mas matéria do poema. Foi um reconhecimento imediato: ali, o mínimo não significa redução, e sim potência.
A prática cotidiana da psicanálise ensinou-me que o silêncio e a palavra têm seu exato momento para acontecer. O que me fascinou no Poetrix foi justamente a tensão entre dizer e calar. No Poetrix, cada palavra precisa justificar sua presença, e aquilo que não é dito passa a vibrar ao redor do verso, demarcando sua presença. O poema não se impõe; ele se insinua.
Sua trajetória de escrita precede o Poetrix. Pode nos contar o itinerário poético que o trouxe até aqui? Quais autores, quais ecos, quais sopros de leitura marcaram a sua escrita?
Algumas leituras foram essenciais nesse percurso. Em Jorge Luis Borges, encontrei a ideia de que somos feitos de espelhos e fragmentos; em Mário Quintana, a delicadeza do cotidiano transformado em poesia. Essas inspirações foram se entrelaçando, não como influências diretas, mas como ecos interiores.
Também havia sopros vindos de outros locais — em especial da psicanálise — que me ensinaram a valorizar o intervalo e a ambiguidade. A escrita passou, então, a buscar menos a afirmação e mais a possível aproximação de sentidos.
Psiquiatra e psicanalista, sentimos curiosidade sobre a sua visão: a escrita poética pode ser, de algum modo, também terapêutica?
Creio que a escrita poética pode ter um efeito terapêutico, mas não no sentido de uma técnica ou de um método. A poesia não cura de forma direta; ela abre espaço. Possibilita respiros. Ao escrever, algo da experiência encontra uma forma simbólica, e aquilo que é, até então, difuso, indizível, começa a ganhar contorno.
Sigmund Freud mostrou que a palavra tem um poder transformador quando permite elaborar afetos e dar destino ao que estava recalcado ou sem inscrição simbólica. A poesia, porém, opera de modo singular: ela não explica, não interpreta — ela desloca, cria ressonâncias. Nesse movimento, algo se reorganiza internamente.
Que pensa do movimento minimalista? Como percebe seu legado, sua força e sua capacidade de transformar o olhar sobre a linguagem?
Vejo o movimento minimalista como um convite à escuta do essencial. Em um tempo marcado pelo excesso de imagens e de palavras, e pela velocidade da comunicação, o minimalismo recoloca a linguagem em um estado de atenção. Ele nos lembra que o poema não precisa ocupar muito espaço para criar profundidade; basta que cada palavra seja carregada de presença.
O movimento minimalista não é apenas uma estética, mas uma atitude diante da palavra. Ele nos ensina que, às vezes, o essencial acontece no intervalo — e que o silêncio, longe de ser vazio, é parte viva do poema.
Como descreveria o seu próprio processo criativo? Onde se encontra o êxtase da inspiração, e onde surgem os tropeços e os recuos?
Meu processo criativo nasce, quase sempre, da observação e da escuta. Não de algo grandioso, mas de um detalhe: uma imagem, uma palavra, um instante que se destaca do fluxo cotidiano — ou de uma intuição. O êxtase da inspiração não é explosivo; é discreto. Surge por ondas. Ele acontece quando percebo que algo necessita ser dito e ainda não encontrou forma. Nesse momento, a escrita surge como aproximação, como tentativa de tocar o indizível.
Mas há também tropeços. Muitas vezes, o verso inicial não sustenta o que prometia, ou a palavra escolhida pesa mais do que ilumina. Então vem o recuo, que não é desistência, mas maturação. Deixo o poema repousar, permitindo que o silêncio trabalhe. Aprendi que forçar a escrita empobrece o poema; é preciso aceitar o tempo interno do texto — e, às vezes, o seu silêncio.
A escrita minimalista faz lembrar o trabalho do escultor, que retira os excessos de um bloco de pedra até alcançar o que existe ali oculto.
O que representa para si a AIP? Que projetos sonha implementar, que sementes deseja plantar na Academia?
Os projetos que imagino nascem dessa ideia de circulação. Gostaria de incentivar pontes entre gerações, aproximando poetas experientes e novos autores, criando espaços de escuta e partilha. Penso também em ampliar o diálogo com outras linguagens — a música, a imagem, a reflexão crítica — permitindo que a poesia se expanda sem perder sua essência.
As sementes que desejo plantar são, sobretudo, de continuidade e abertura. Continuidade, no respeito ao legado já construído; abertura, na acolhida do novo, do experimental, do minimalista, do que ainda procura forma.
Acredito que uma Academia se fortalece quando consegue ser memória e, ao mesmo tempo, horizonte.
Tem um grande patrono, o poeta Thiago de Mello. Que tipo de ligação sente com ele, e de que maneira sua obra o acompanha ou inspira?
Sinto ter com Thiago de Mello uma grande identificação: há, em sua obra, uma ética da palavra que sempre me tocou profundamente. A poesia surge como gesto de humanidade, como defesa da dignidade e como afirmação da esperança, mesmo em tempos adversos. Essa dimensão confere à sua escrita uma força que é, ao mesmo tempo, lírica e comprometida.
O que mais me inspira é a capacidade que ele teve de unir simplicidade e profundidade. Seus versos não se impõem pela complexidade, mas pela clareza que nasce da experiência vivida e partilhada. Há neles uma confiança na palavra como ponte entre o íntimo e o coletivo, entre o sofrimento e a possibilidade de transformação.
Para terminar: como percebe a articulação entre arte e vida, entre poesia e experiência interior, entre o silêncio e a palavra que nos transforma?
Arte e vida não se encaixam como espelho. A arte não é a vida traduzida, nem a vida é matéria bruta simplesmente “expressa” pela arte. Entre ambas há um intervalo — um desvio. É nesse desvio que algo se transforma. O vivido, quando passa pela linguagem, deixa de ser apenas vivencia: é reorganizado, recortado, às vezes até traído. Mas é nessa “traição” que ela ganha forma e, paradoxalmente, verdade. Assim surge a experiência.
A arte, então, é uma operação sobre o real. Ela não diz simplesmente o que sentimos; ela instaura um modo novo de sentir aquilo que, antes, era informe. O que era difuso, silencioso, quase impensável, encontra uma borda — e, assim, começa a se tornar habitável.
AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028
Ximo Dolz – acadêmico cadeira 30
Última atualização em:
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Deixando o ninho: Homenagem ao Poeta Lorenzo Ferrari
As despedidas são sempre dolorosas. Com a ajuda do Tempo, a dor lentamente se converte em saudade... Aqui, ofertamos de maneira gentil e amorosa, uma homenagem ao poeta Lorenzo Ferrari: esposo, irmão, amigo, sonhador e, entre tantos outros adjetivos, poetrixta.
O silêncio da AIP o incomodava. Ele precisava falar. A voz sempre presente, como agora, mesmo ausente. Ele ainda fala. Nos poemas… serão poetrix? Sim, são Poetrix. Para ele, sobre ele. O poema minimalista a dominar um homem grande. Desafiando o engenheiro que se fez poeta.
Um tema recorrente eram as galáxias, o infinito. Ou as sinestesias sensoriais. Seus versos sempre contêm uma definição de alguma coisa ou de si mesmo.
O mundo não podia ter segredos. Tudo precisava ser previsto. Talvez por isso – o regimento. O Universo minuciosamente controlado, calculado.
Se segredos há, agora ele vai descobrir. E vai definir, vai pesquisar suas leis e vai poetizar, será poetrix.
Agora, um Poetrix Nobel. (...)
Última atualização em:
sábado, 2 de maio de 2026
Cinco Poetrix de Dirce Carneiro
PONTE ESTENDIDA
A Lorenzo Ferrari
Partiu o poeta
Encontro nos versos
Liame perene
Dirce Carneiro
NA OUTRA MARGEM
Ele nos observa
A voz ainda ressoa
Panteão busca o infinito
Dirce Carneiro
QUASE FIM DE ESTAÇÃO
Foi um abril atípico
Outono traz sinestesias
Quedo-me a perscrutar
Dirce Carneiro
DIRETOR INVISÍVEL
Palavras não dizem tudo
São muitos cenários
Personas movem-se no palco
Dirce Carneiro
PENSANDO COM O BIGODE
Entre a fala e a prática, abismo
Ser humano é indefinível
Faço cara de Dali
Dirce Carneiro
Última atualização em:
Dois Poetrix de Saulo Pessato
TURBULÊNCIA
Susto no ar jóquei do aço
o refugo, o salto, a aeromoça amansa
seu rabo de cavalo apenas balança
Saulo Pessato
RENOMEIO
Escalada a Ponte dos Suicidas
Que vista maravilhosa!
Paro, mudo... os meus planos.
Saulo Pessato
Última atualização em:
domingo, 26 de abril de 2026
Entrevista com Rita Queiroz
ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX
ENTREVISTA COM RITA QUEIROZ
CADEIRA 3
RITA QUEIROZ, O LIRISMO COMO META
Rita Queiroz, filha de Salvador, soteropolitana de corpo
e mar, poeta nascida nessa cidade mítica onde o Atlântico bate como um coração
antigo. Terra de histórias e encantos, do Capitão da Areia e de tantas canções
que se derramam pelas ladeiras, entre o sal do vento e o riso do povo. Nela,
Rita bebe essa luz quente e mestiça e escreve como quem conhece o segredo das
marés, com a alma aberta, livre e cheia de vida. Professora universitária e
especialista em filologia, desde 2019 frequenta o Poetrix com um lirismo
singular feminino e feminista na Confraria da Ciranda Poetrix e, desde dezembro
de 2025 ocupa a cadeira 3 da nossa Academia Internacional Poetrix. Clique aqui para acessar a biografia completa da autora.
Rita, é impossível começar sem evocar tua cidade mítica,
Salvador. De que modo esse mar, essas ladeiras e essa memória viva respiram
dentro da tua poesia?
Salvador é uma poesia a céu aberto. Onde quer que vá, respiro poesia. Minhas vivências, minhas memórias, meus afetos perpassam pela cidade. Minha infância, minha adolescência, minha vida adulta se encontram na minha escrita. E o mar, com seus mistérios e encantos, sempre me fascinou e me proporcionou mergulhar em mim mesma e assim poder me revelar, ora como água rasa, ora como água profunda.
Quando estudante do curso de Letras, tive a oportunidade de conhecer o Jorge Amado. Estive presente nas comemorações dos seus 80 anos. Desde menina que a obra de Jorge Amado tem impacto na minha vida. Viver, através da escrita dele, a saga do cacau, a luta pelo reconhecimento da cultura afro-brasileira, a defesa do povo de santo, o protagonismo feminino reverberaram na minha formação intelectual. Estudar suas obras a partir do vocabulário popular foi uma experiência que me remeteu à minha infância, quando ia para a casa de meus avós na zona rural e ouvia as pessoas falarem daquele jeito que ele escrevia. Além de Jorge Amado, poetas como Cecília Meireles e Vinícius de Moraes marcaram minha produção.
Em que paisagens nasceram teus primeiros versos, foram
ruas, mares, silêncios ou ausências?
Ausências, de quem se foi através das águas, sejam estas doces ou salgadas.
Teu destino parece entrelaçado à palavra… Como se deu o teu encontro com o Poetrix e que horizontes ele abriu na tua criação?
Sim, a palavra é o meu combustível. A escrita minimalista sempre fez parte da minha trajetória, mesmo não conhecendo o Poetrix, do qual só tomei conhecimento em 2019, quando participei do Encontro do Mulherio das Letras em Natal, no Rio Grande do Norte. Durante o evento, a Luciene Avanzini me convidou para uma oficina ministrada pela Aila Magalhães. Depois disso, ela me chamou para fazer parte do grupo Ciranda Poetrix, no qual conheci muita gente e pude desenvolver melhor a minha escrita minimalista. Assim, tenho participações em algumas antologias da AIP, de todas da Ciranda Poetrix, além de dois livros solo de Poetrix e um com 1/3 de Poetrix, o “Mínima Poesia”, o qual ficou em segundo lugar no concurso da AIP.
Como professora que orienta novos olhares, que leitura
nos ofereces do Poetrix e das suas possibilidades mais sutis?
Minha investigação acadêmica não dialoga, diretamente, com minha produção poética. Embora haja uma influência discreta, pois ser do mundo das Letras nos permite conexões diversas. Passado e presente se misturam e temas investigados por mim, como a violência contra mulheres, se fazem ecoar em minha produção, seja esta em versos ou em prosa. Ler autores canônicos e os contemporâneos têm me ajudado a escrever melhor, não só a poesia minimalista como textos diversos.
Tendo Olga Savary como patrona, que ressonâncias
encontras na tua obra de poeta e contista nordestina?
A literatura de Olga Savary pulsa feminismo. Desse modo, ressoam nossas obras.
O que é o Poetrix para ti? Como se acende, no teu íntimo,
o instante da criação?
O Poetrix é para mim um sopro, um alento, um golpe profundo. O Poetrix evoca muitas sensações e muitos sentidos. Há Poetrix que nos deixam sem ar, como se tivéssemos recebido um soco no estômago. Há outros que nos deixam em êxtase e outros que nos fazem acalmar a alma. O que escrevo é mais lírico. Então ele surge da mesma forma como escrevo outros textos, apenas com o diferencial que devo ser mais sucinta, deixar os sentidos nas entrelinhas.
Teu lirismo, tão singular e reconhecido, como o
nomearias, se tivesses de lhe dar um rosto?
Seria um rosto em braille, aberto a inúmeras leituras, seja através do tato ou da decifração dos seus caracteres plurissignificativos.
Poderias partilhar um dos teus Poetrix e abrir-nos a
porta do seu sentido?
MANHÃS
DE SOL
Bem-te-vis
despertam sonolentos
Visto-me
de esperanças vivas
Acasos
mudam destinos
Rita
Queiroz
Deixo que vocês leiam-me e digam quais sentidos foram
despertados.
Como nova acadêmica da AIP, que caminhos desejas semear
com a tua voz?
Desejo sempre semear, onde quer que esteja, a poesia, plena de amor, esperanças, a fim de que possamos transformar esse mundo caótico.
Mulher e poeta, como percebes hoje a escrita como espaço de afirmação e travessia feminina?
Comecei a escrever e a publicar com mais produtividade a partir de 2015. Lancei-me primeiro nas redes sociais. Nesse espaço, encontrei ex-alunos e ex-alunas que me incentivaram a seguir. Assim, ex-alunas que atuam na docência na área da literatura, me propuseram uma discussão acerca da autoria feminina. Desse modo, surgiu o coletivo que coordeno: a Confraria Poética Feminina. Formado por mulheres, desde 2016, já publicamos 10 coletâneas e duas agendas poéticas, além de termos levado nossas vozes a dezenas de eventos literários no Brasil e no exterior. Com esse coletivo, damos vez e voz para outras mulheres que se reconhecem na nossa escrita. Nesses 10 anos de existência, outros coletivos surgiram e vimos a força feminina presente em várias áreas. Transformamos silêncios em ecos, reverberados na poesia, na prosa, nos textos para as infâncias, na música e nas artes de um modo geral.
Para terminar: onde se encontram, para ti, a relação entre
a arte e a vida?
Em tudo. Não há como separar a arte e a vida, pois elas se complementam. Não há fronteiras.
Academia
Internacional Poetrix
Gestão
Uni-Versos (2026-2028)
Entrevista
por Ximo Dolz
Acadêmico
cadeira 30
As imagens pertencem ao acervo particular da autora.
Última atualização em:
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Quatro Poetrix de Ximo Dolz
ENSINAR LÍNGUAS
acender fogo na boca
vozes no limiar
brasa que queima e cala
Ximo Dolz
BILÍNGUES FORÇADOS
uma língua sonha dentro da outra
a outra escreve com olhos fechados
o futuro treme
Ximo Dolz
URDIR A LÍNGUA
falam com ele, sim
não tece por dentro
o nó aprende a sonhar
Ximo Dolz
MESTRE
não dá luz
acende caminhos no outro
sabe retirar-se
Ximo Dolz
Última atualização em:
Quatro Poetrix de José de Castro
O PODER DAS ÁGUAS
Já fui rio
Hoje, sou mar
Lágrimas me navegam
José de Castro
O PODER DO SONHO
Delírio de olhos abertos
Outros mundos, reinvento
A vida pode ser maior
José de Castro
O PODER DA CANÇÃO
Tua melodia ecoa no ar
Timbres de ternura
Clave de amor maior
José de Castro
O PODER DA FILOSOFIA
Platônico amor
Sartreana existência
Freudiana_mente tudo explico
José de Castro
Última atualização em:
Dois Poetrix de Saulo Pessato
RUMORES VOAM
Pegada de terra deixada suja
o entorno do buraco da Coruja
fofocas no bairro do João-de-Barro
Saulo Pessato
JULGAMENTO NA JUDEIA
Benjamin com beijo falso
Pôncio Pilatos, Netanyaho
Liberta Hitler e o Cristo condena...
Saulo Pessato
Última atualização em:
Quatro Poetrix de Cleusa Piovesan
TRISTE ESTIO
Não vieram as "águas de março"
promessa que o céu não cumpriu
vida "à espera de um milagre"
MUNDO SEM CONSERTO
Andorinhas voam sem rumo
laranjeiras não têm sinfonia
concerto diário perdeu o maestro
"O INFERNO SÃO OS OUTROS"
Não governo minhas vontades
há mãos de outrem em meu destino
ah, se eu não fosse racional...
EXTERIORIDADES
Livre arbítrio é ilusão
somos marionetes da mídia
vivemos (des)governados
Cleusa Piovesan
Última atualização em:
Três Poetrix de Rita Queiroz
INTROSPECÇÃO
Amanheço em ondas azuis
Paz faz morada nos olhos
Corpo levita sem freios
ABISMOS SUSSURRANTES
Ventos embriagam-me de ausências
Peito rasga-se em sussurros
Vazio aporta-me
LABIRÍNTICAS MEMÓRIAS
Sangram saudades infindas
Eternas vidas se refazem
Silencio-me no ocaso
Rita Queiroz
Última atualização em:
Três Poetrix de Marcelo Marques
CONFLUENTES EXISTÊNCIAS
Vidas seguem paralelas
Rotas se cruzam na jornada...
Destinos diferentes tão iguais
Marcelo Marques
HUMANOS INSTINTOS
Incontroláveis anormais
Adestradas mentes sufocadas
Sobrevivência em constante extinção
Marcelo Marques
MARCAS
Feridas que machucaram
Cicatrizes permanecem...
Sempre há dor a ser lembrada
Marcelo Marques
Última atualização em:
sábado, 18 de abril de 2026
Nota de Pesar
É com grande tristeza que a Academia Internacional de Poetrix comunica o falecimento, no dia 18 de abril, do seu membro Lorenzo Ferrari, poeta sutil e comprometido, e membro ativo da nossa Academia. Encontramo-nos em luto.
A Academia deseja transmitir à família e aos amigos de Lorenzo as suas mais sentidas condolências, bem como a sua mais profunda solidariedade neste momento de dor.
Os Poetrix de Lorenzo permanecerão para sempre como testemunho do seu pensamento profundo e da arte sensível que soube transmitir, deixando uma marca viva no nosso percurso comum.
Última atualização em:
domingo, 12 de abril de 2026
Entrevista com Ximo Dolz
ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX – AIP
ENTREVISTA
COM O ACADÊMICO
XIMO
DOLZ – CADEIRA 30
Joaquim Dolz, professor honorário da Universidade de
Genebra, pesquisador do Poetrix e poeta sob o nome de Ximo Dolz, integra a
Academia Internacional Poetrix desde dezembro de 2025. Entre a didática das
línguas e a respiração breve do poema mínimo, constrói uma obra onde pensar e
sentir se entrelaçam com discrição e intensidade.
Biografia completa de Ximo Dolz e seu Discurso de posse estão disponíveis no blog da AIP.
Entrevista concedida a Dirce Carneiro
(acadêmica – cadeira 26)
Gestão Uni_Versos – 2026/2028
1) Onde nasceu? Que memórias guardam os seus primeiros
lugares?
2) Como a sua trajetória acadêmica atravessa a sua
escrita?
Há mais de quatro décadas habito a Universidade de
Genebra. Dediquei-me ao ensino e à aprendizagem das línguas, à didática do
francês, à formação de professores. A maior parte da minha obra é académica,
mas suspeito que também aí se esconde uma forma de escrita — uma atenção ao
detalhe, uma escuta do outro, uma arquitetura do sentido.
3) O que o plurilinguismo lhe ensinou?
Aprender línguas foi, antes de tudo, aprender a
deslocar-me. Ao falar um português imperfeito, compreendi melhor outras
culturas e, ao mesmo tempo, relativizei a minha. Descentrei-me. Abri-me. O
plurilinguismo não é apenas uma competência: é uma forma de estar no mundo.
Enriquece a sociabilidade, sim — mas também a maneira de pensar.
4) O olhar atento e o pensamento crítico: o que lhe ensinaram?
O olhar atento e o pensamento crítico ensinaram-me a
não aceitar o mundo como dado, mas como construção. A ver o invisível, a
interrogar o evidente, a escutar antes de julgar.
Olhar e pensar, afinal, são formas de
responsabilidade. A ética da discussão de Habermas é um caminho.
5) Há algo que ainda deseja aprender?
Tudo. Quanto mais estudei, mais consciência tenho do
que ignoro. Talvez seja esse o verdadeiro motor: saber que o saber nunca se
fecha.
6) Como chegou ao Poetrix?
Cheguei quase por acaso, pela mão de Paula Cobucci,
que investigava o gênero em Genebra. Entrei como observador e acabei por ficar,
como quem encontra uma casa inesperada. Desde 2022 escrevo Poetrix quase
diariamente.
7) Como nasce um Poetrix em si?
O Poetrix, para mim, é jogo e rigor. Um espaço
mínimo onde a linguagem se condensa. Procuro, com poucos elementos, criar uma
abertura: um enigma, uma vibração, uma pequena fratura no sentido. Escrevo sem
ambição, mas com alegria quando surge essa centelha: três versos, um título, e
de repente algo se expande.
8) A criação está entre dor e prazer?
Sim, ambos coexistem. A escrita foi também
terapêutica. Como dizia Octavio Paz, a poesia é um diálogo, e esse diálogo,
muitas vezes, é interior.
9) O que representa a Academia para si?
Uma partilha. Um compromisso com um projeto coletivo
iniciado por Goulart Gomes e continuado por vozes que admiro. Também um
desafio: atravessar momentos de fragilidade e transformá-los em construção
comum.
10) E a experiência nos grupos?
Rica, viva, por vezes tensa, como todo espaço de
criação. Há trocas, há aprendizagens, e há também diferenças. Eu próprio sei
que caminho com uma visão muito pessoal do Poetrix.
11) O Poetrix pode ser ensinado?
É essa a pergunta que me move. Com Paula Cobucci,
estudamos a evolução do gênero, as suas formas, as práticas nas plataformas.
Procuramos construir um modelo didático que permita explorar o seu potencial na
aprendizagem da língua e da criação literária.
12) E o seu papel na Academia?
Hoje participo na direção, mas o meu desejo é
simples: explorar o Poetrix como instrumento de aprendizagem, da língua, da
escuta, da sensibilidade.
13) O que pode a arte num mundo inquieto?
No meu caso, humaniza-me. Devolve-me ao essencial
quando tudo à volta parece disperso. A arte é uma forma de reencontro: comigo
mesmo, com os outros, com aquilo que ainda resiste ao ruído… é uma resistência
contra a guerra e a sem-razão, contra a ausência de lógica ou explicação
aparente do que o mundo está a viver.
Ela desacelera o tempo, cria um espaço de escuta e
de atenção, onde o sentido pode emergir sem pressa. Num mundo fragmentado e em
guerra, a arte recompõe, não resolve, mas ilumina. Permite nomear o indizível,
dar forma à inquietação, transformar a experiência em partilha.
Também me ensina a olhar: a ver o detalhe, o quase
invisível, aquilo que passa despercebido na pressa do quotidiano. E, nesse
gesto, há já uma ética habermassiana, uma maneira de estar mais atento, mais
disponível, mais humano.
A arte não salva o mundo, mas humaniza quem o
habita. E talvez isso seja, hoje, uma das formas mais necessárias de
resistência.
14) Que livros, que caminhos de escrita o definem?
A biblioteca completa como diria Borges. E uma
perspectiva teórica o interacionismo sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart.
15) Há uma obra que gostaria de destacar?
Mas que obras autores: Ausias March, Joan
Salvat-Papasseit, Joan Brossa, Vicent Andrés Estellés por citar alguns poetas
da minha lingua primeira. Pessoa em português. Garcia Lorca e meu amigo José
Cereijo em espanhol. Tantos poetas e tantas obras… os sonetos de Borges.
16) O mundo acelera. Estamos a perder o equilíbrio?
HOJE
o mundo
acelera
o
equilíbrio não se perde
desaprende-se
17) Que vozes o acompanham, que autores o atravessam?
Na verdade, as minhas vozes interiores são polifônicas:
um concerto onde ressoam os meus ancestrais, as minhas leituras, a música que
me habita.
________________________________
AIP – Gestão Uni_Versos – 2026/2028
Dirce Carneiro – acadêmica, cadeira 26
Última atualização em:
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