ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX
ENTREVISTA COM RITA QUEIROZ
CADEIRA 3
RITA QUEIROZ, O LIRISMO COMO META
Rita Queiroz, filha de Salvador, soteropolitana de corpo
e mar, poeta nascida nessa cidade mítica onde o Atlântico bate como um coração
antigo. Terra de histórias e encantos, do Capitão da Areia e de tantas canções
que se derramam pelas ladeiras, entre o sal do vento e o riso do povo. Nela,
Rita bebe essa luz quente e mestiça e escreve como quem conhece o segredo das
marés, com a alma aberta, livre e cheia de vida. Professora universitária e
especialista em filologia, desde 2019 frequenta o Poetrix com um lirismo
singular feminino e feminista na Confraria da Ciranda Poetrix e, desde dezembro
de 2025 ocupa a cadeira 3 da nossa Academia Internacional Poetrix. Clique aqui para acessar a biografia completa da autora.
Rita, é impossível começar sem evocar tua cidade mítica,
Salvador. De que modo esse mar, essas ladeiras e essa memória viva respiram
dentro da tua poesia?
Salvador é uma poesia a céu aberto. Onde quer que vá, respiro poesia. Minhas vivências, minhas memórias, meus afetos perpassam pela cidade. Minha infância, minha adolescência, minha vida adulta se encontram na minha escrita. E o mar, com seus mistérios e encantos, sempre me fascinou e me proporcionou mergulhar em mim mesma e assim poder me revelar, ora como água rasa, ora como água profunda.
Quando estudante do curso de Letras, tive a oportunidade de conhecer o Jorge Amado. Estive presente nas comemorações dos seus 80 anos. Desde menina que a obra de Jorge Amado tem impacto na minha vida. Viver, através da escrita dele, a saga do cacau, a luta pelo reconhecimento da cultura afro-brasileira, a defesa do povo de santo, o protagonismo feminino reverberaram na minha formação intelectual. Estudar suas obras a partir do vocabulário popular foi uma experiência que me remeteu à minha infância, quando ia para a casa de meus avós na zona rural e ouvia as pessoas falarem daquele jeito que ele escrevia. Além de Jorge Amado, poetas como Cecília Meireles e Vinícius de Moraes marcaram minha produção.
Em que paisagens nasceram teus primeiros versos, foram
ruas, mares, silêncios ou ausências?
Ausências, de quem se foi através das águas, sejam estas doces ou salgadas.
Teu destino parece entrelaçado à palavra… Como se deu o teu encontro com o Poetrix e que horizontes ele abriu na tua criação?
Sim, a palavra é o meu combustível. A escrita minimalista sempre fez parte da minha trajetória, mesmo não conhecendo o Poetrix, do qual só tomei conhecimento em 2019, quando participei do Encontro do Mulherio das Letras em Natal, no Rio Grande do Norte. Durante o evento, a Luciene Avanzini me convidou para uma oficina ministrada pela Aila Magalhães. Depois disso, ela me chamou para fazer parte do grupo Ciranda Poetrix, no qual conheci muita gente e pude desenvolver melhor a minha escrita minimalista. Assim, tenho participações em algumas antologias da AIP, de todas da Ciranda Poetrix, além de dois livros solo de Poetrix e um com 1/3 de Poetrix, o “Mínima Poesia”, o qual ficou em segundo lugar no concurso da AIP.
Como professora que orienta novos olhares, que leitura
nos ofereces do Poetrix e das suas possibilidades mais sutis?
Minha investigação acadêmica não dialoga, diretamente, com minha produção poética. Embora haja uma influência discreta, pois ser do mundo das Letras nos permite conexões diversas. Passado e presente se misturam e temas investigados por mim, como a violência contra mulheres, se fazem ecoar em minha produção, seja esta em versos ou em prosa. Ler autores canônicos e os contemporâneos têm me ajudado a escrever melhor, não só a poesia minimalista como textos diversos.
Tendo Olga Savary como patrona, que ressonâncias
encontras na tua obra de poeta e contista nordestina?
A literatura de Olga Savary pulsa feminismo. Desse modo, ressoam nossas obras.
O que é o Poetrix para ti? Como se acende, no teu íntimo,
o instante da criação?
O Poetrix é para mim um sopro, um alento, um golpe profundo. O Poetrix evoca muitas sensações e muitos sentidos. Há Poetrix que nos deixam sem ar, como se tivéssemos recebido um soco no estômago. Há outros que nos deixam em êxtase e outros que nos fazem acalmar a alma. O que escrevo é mais lírico. Então ele surge da mesma forma como escrevo outros textos, apenas com o diferencial que devo ser mais sucinta, deixar os sentidos nas entrelinhas.
Teu lirismo, tão singular e reconhecido, como o
nomearias, se tivesses de lhe dar um rosto?
Seria um rosto em braille, aberto a inúmeras leituras, seja através do tato ou da decifração dos seus caracteres plurissignificativos.
Poderias partilhar um dos teus Poetrix e abrir-nos a
porta do seu sentido?
MANHÃS
DE SOL
Bem-te-vis
despertam sonolentos
Visto-me
de esperanças vivas
Acasos
mudam destinos
Rita
Queiroz
Deixo que vocês leiam-me e digam quais sentidos foram
despertados.
Como nova acadêmica da AIP, que caminhos desejas semear
com a tua voz?
Desejo sempre semear, onde quer que esteja, a poesia, plena de amor, esperanças, a fim de que possamos transformar esse mundo caótico.
Mulher e poeta, como percebes hoje a escrita como espaço de afirmação e travessia feminina?
Comecei a escrever e a publicar com mais produtividade a partir de 2015. Lancei-me primeiro nas redes sociais. Nesse espaço, encontrei ex-alunos e ex-alunas que me incentivaram a seguir. Assim, ex-alunas que atuam na docência na área da literatura, me propuseram uma discussão acerca da autoria feminina. Desse modo, surgiu o coletivo que coordeno: a Confraria Poética Feminina. Formado por mulheres, desde 2016, já publicamos 10 coletâneas e duas agendas poéticas, além de termos levado nossas vozes a dezenas de eventos literários no Brasil e no exterior. Com esse coletivo, damos vez e voz para outras mulheres que se reconhecem na nossa escrita. Nesses 10 anos de existência, outros coletivos surgiram e vimos a força feminina presente em várias áreas. Transformamos silêncios em ecos, reverberados na poesia, na prosa, nos textos para as infâncias, na música e nas artes de um modo geral.
Para terminar: onde se encontram, para ti, a relação entre
a arte e a vida?
Em tudo. Não há como separar a arte e a vida, pois elas se complementam. Não há fronteiras.
Academia
Internacional Poetrix
Gestão
Uni-Versos (2026-2028)
Entrevista
por Ximo Dolz
Acadêmico
cadeira 30
As imagens pertencem ao acervo particular da autora.
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Um comentário:
Parabéns pela vida, querida Rita! Para mim você é um exemplo.
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