domingo, 20 de setembro de 2026
Grafitrix de Dirce Carneiro
Última atualização em:
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Dez Poetrix de Dirce Carneiro
CRÈME DE LA CRÈME
Tudo o que é de fora, é bom
A colônia persiste, neva no Natal
Poema tropical sua para soar
Dirce Carneiro
LOAS E LENDAS
Murros em ponta de faca
Água mole em pedra dura, cansa
Ser rocha, mesmo assim, verte o verso
Dirce Carneiro
MINHA HISTÓRIA, HIT ALEGÓRICO
Amor de marinheiro
Olhar perdido no cais
O fruto bendito sem pai
Dirce Carneiro
(Comp. Chico Buarque)
ACHADOS E PERDIDOS
Na reta, perde a sintaxe
Sentido acena depois da esquina
Saudações, enjambement
Dirce Carneiro
SEM ECOS
Voz dissonante fala
o que se ouve, fere
a sintonia treme
Dirce Carneiro
OLOR JUVENIL
Breve brisa beija
A face rubra-se
Em tons de rosa, deseja
Dirce Carneiro
EM PARTES
Livre caminho
Aonde vou levo-me
Eu inteira, parto
Dirce Carneiro
PORTA ABERTA
Passarinho deu a senha
Voar solta o que te ata
Puxa a ponta do nó----
Dirce Carneiro
SENTADO NA PRAÇA EM SIDNEY, UM NEGRO BÊBADO PEDIA
Numa terra distante, eu vi
Ele olhou-me nos olhos
Travei, meu país estava ali
Dirce Carneiro
(Esses habitantes da Austrália de pele escura são os aborígenes, o povo originário)
MEU POEMA, MINHA RÉGUA
Nos meus versos livres, fatio
A torta linha do tempo, traço
Multiplico os enjambements
Dirce Carneiro
Última atualização em:
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
DES_A_FIO: Análise de Poetrix de José de Castro, por Dirce Carneiro
ANÁLISE DE POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO
Por Dirce Carneiro
Acadêmica, cadeira 26
DES_A_FIO
Não mais conto os dias
Na brancura, os desfio
Fio a fio, desafia-me a velhice
José de Castro
Primeiramente, salta aos olhos a construção do título.
A desconstrução de uma palavra-verbo-substantivo (desafio) que lhe sobrepõe outros sentidos da palavra resultante: DES_A_FIO.
Se desafio fica no não dito, nas entrelinhas, na construção com os underlines, a resultante, des – a – fio, com o prefixo [des] nos remetendo a algo que já não é, relativo a fio, com a sobreposição, ainda, de outro sentido, [a fio]. A fio, nos aproxima de fio por fio, um por um, e ainda, de [afio]: um sujeito afiado, decidido, com suas escolhas bem resolvidas.
Então temos, entre o dito e o não dito, a sobreposição dos sentidos: desafio, não olhar o que passou, o que já não é; fio por fio (um por um), afio (o sujeito com suas escolhas bem resolvidas).
Realmente, é um título bem instigante, que toca na representação visual da palavra e, também, no que ela representa no não dito, no emocional, na interpretação, nas entrelinhas, no que o leitor tem a descobrir.
No primeiro verso:
Não mais conto os dias, o eu poético nos remete ao prefixo [des]. Ele descontrói o tempo, não vive do passado, sugerindo que só o presente importa. Mas...houve um tempo em que contar os dias importava: [Não mais conto os dias]. O calendário já não importa. Carpe diem, é a sugestão. Há uma época em que não podemos perder tempo e o passar dos dias nos aflige, tanta é a energia para gastar, compromissos a cumprir, desejos a realizar, medo e culpa de não dar conta, os outros e nós mesmos a cobrar. Isto tudo ficou para trás.
Segundo verso:
Na brancura, os desfio, o eu poético nos coloca diante da dualidade, estaria se referindo a dias ou, quem sabe, a fios (de cabelo?), ou aos dois?
Na brancura: [1] no que ainda há de vir, no desconhecido do tempo; [2] na sabedoria do presente, amadurecido pela vida. [3] nos cabelos brancos; os desfio: tira-lhes o peso, torna-os mais leves. Pode ser tanto com relação aos dias vividos como à simbologia dos cabelos brancos.
Terceiro verso:
Fio a fio, desafia-me a velhice: finalmente, no terceiro verso, o eu poético condensa, traz à tona o sentido da composição, desde o título. Dia a dia, o tempo presente o desafia. Viver cada dia como se fosse único, de maneira leve, mas determinada.
Conclusão:
Através da sonoridade, de recursos visuais, do léxico, de metáforas, o poeta constrói um poetrix com várias camadas de sentidos e símbolos. Até a leitura do último verso e, também depois, ainda outros sentidos ficam a nos sugestionar, face à engenhosidade da concepção, arquitetura e realização do poema. Note-se certa circularidade, tanto no aspecto formal, quanto no aspecto semântico. O poetrix nos possibilita, também, a reflexão, neste caso, uma variação sobre o tema.
Como uma única leitura não esgota o sentido de um poema, pois não é uma equação matemática, concluo optando pelo sentido de que o poeta já não se aflige com o passar dos dias, mas vive-os no presente, Carpe diem, de maneira leve, mas tenaz, desafiado pelo conhecimento do caráter do tempo, esse ser invisível, que nos espreita e confronta, mas que pode ser desfiado, tornado leve, e assim, desafiado.
Dirce Carneiro
4 de setembro de 2026
Última atualização em:
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Poetrix Série Mês dos Pais - Dirce Carneiro
SÉRIE MÊS DOS PAIS DIRCE CARNEIRO
RETRATO NO TEMPO
Descobri seu jeito de amar
No divã, a luz sobre a infância
Cresci alguns centímetros
Dirce Carneiro
AMOR NÃO DITO
Já fiz poetrix desta memória
Recorte de afeto sem verbo
O pão debaixo do sovaco
Dirce Carneiro
PEDAGOGIA DO SERTÃO
O feio a gente perdoa
O bom ganha moldura
Vencer a roça seca foi sua escola
Dirce Carneiro
PERFIL PATERNO
Estranho gosto: a política
Desconfiado de governos
Visão tragicômica do sistema
Dirce Carneiro
ENTRE NÉVOAS
Uma cena de carinho...
Só uma lembrança, infantil
Eu brinquei no seu peito nu
Dirce Carneiro
AMOR NÃO DITO II
Ato famélico
Desenrolar carnes das pernas
Depois, descansar do frigorífico
Dirce Carneiro
O SONHO DOS PAIS: FILHOS DOUTORES
Achava bonito eu ler
Eu lia para as visitas
Ele trazia vida de santos
Dirce Carneiro
PASSA O TEMPO: POR QUÊ?
Éramos divididos
O partido era da mãe
O divã tentava: tira a mãe do altar
Dirce Carneiro
HERÓI?
Uma cena tatuada
Num golpe, a tora se parte
Um som ancestral
Dirce Carneiro
OCASO
Ficou suave, estava bem, café da manhã
Sentou, pousou como um passarinho
Deu um suspiro e voou
Dirce Carneiro
***
30 de agosto 2026
Dirce Carneiro
Última atualização em:
sábado, 22 de agosto de 2026
Cinco Poetrix de Dirce Carneiro
QUÂNTICA
Versos reverberam
Cada linha'corda
Poema-violino
Dirce Carneiro
MARAVILHOSO
Broto rasga a terra
Rebento vem à luz
Universo em milagre
Dirce Carneiro
INCANSÁVEL
Tum, tum, tum
Bate em vida, jorra
Doa na trilha-aorta
Dirce Carneiro
KARDIA
Cápsula dos nossos tesouros
Nossos bens guardados
Portal da ânima
Dirce Carneiro
BATE BATE CORAÇÃO
Qual é o ritmo
A toada acelera
Busco o aboio da paz
Dirce Carneiro
Última atualização em:
domingo, 5 de julho de 2026
Dois Poetrix de Dirce Carneiro
PASSEATA
Era o ampliar da consciência
Novo élan no horizonte
Semente brotando
Dirce Carneiro
LIÇÃO DE RUA
Mãos dadas, vozes-faróis
Aprendizado de união
Havia uma doçura na luta
Dirce Carneiro
______
Do livro Poemas de Ostras – Poetrix (2025)
Última atualização em:
sábado, 6 de junho de 2026
Seis Poetrix de Dirce Carneiro
RETROVISOR
Éramos tão felizes
diferenças de classes, ocultas
felicidade era voar na capucheta
Dirce Carneiro
BEM-TE-VI
Não sou ovelha
mais para onça pintada
ave chora-canta paz
Dirce Carneiro
LÚDICO
Fetiche por água
borbulham universos
memória uterina
Dirce Carneiro
AVOÍCES
Banho no tanque
avós avessas a regras
navegos em mares-rios
Dirce Carneiro
ENCARNAÇÃO
Viemos da era do Verbo
vestimos carne, tempo
virtual lugar-agora
Dirce Carneiro
RESPOSTA AO TEMPO I
Afinal, tempo, que queres?
de mim terás a carcaça
o meu tesouro não tocarás
Dirce Carneiro
Poetrix do Livro "Poemas de Ostras", de Dirce Carneiro (2025)
Última atualização em:
sábado, 2 de maio de 2026
Cinco Poetrix de Dirce Carneiro
PONTE ESTENDIDA
A Lorenzo Ferrari
Partiu o poeta
Encontro nos versos
Liame perene
Dirce Carneiro
NA OUTRA MARGEM
Ele nos observa
A voz ainda ressoa
Panteão busca o infinito
Dirce Carneiro
QUASE FIM DE ESTAÇÃO
Foi um abril atípico
Outono traz sinestesias
Quedo-me a perscrutar
Dirce Carneiro
DIRETOR INVISÍVEL
Palavras não dizem tudo
São muitos cenários
Personas movem-se no palco
Dirce Carneiro
PENSANDO COM O BIGODE
Entre a fala e a prática, abismo
Ser humano é indefinível
Faço cara de Dali
Dirce Carneiro
Última atualização em:
quarta-feira, 25 de março de 2026
Poetrix de Dirce Carneiro
GEOPOLÍTICA
(do bairro onde vivi)
Estação era referência
Traçava-se o mapa social
Ponto de todas as distâncias
Dirce Carneiro
Última atualização em:
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Poetrix de Dirce Carneiro
Última atualização em:
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Poetrix de Dirce Carneiro
Última atualização em:
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Poetrix de Dirce Carneiro
Última atualização em:
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Eu e o Poetrix de Dirce Carneiro
EU E O POETRIX
(Dirce Carneiro
Acadêmica AIP Cadeira 26)
Porque atraiu-me, dedico-me e escrevo Poetrix?
A proposta acenou-me como desafio.
Num mundo da velocidade, em que, muitas vezes, a pressa anula o intervalo entre o enunciado da mensagem e o seu fim – o raciocínio, o Poetrix, para mim, se apresentou como forma poética a romper essa bolha de clips rápidos e alienantes.
Já disse, em outras ocasiões, que o Poetrix une o clássico e o moderno-contemporâneo, contemplando uma das mais interessantes combinações culturais.
Clássica, porque traz, na forma, fixa, a exigência de 30 sílabas poéticas no terceto, não se considerando o título nesta contagem.
Moderno-contemporâneo, porque no seu conteúdo, livre, cabem todos os universos de assuntos que habitam a imaginação dos poetas.
Assim, para meu estilo dissertativo, fui desafiada a sintetizar enunciados poéticos e visões de mundo, tendo a profundidade e a máxima poeticidade (possível a cada autor), como atributos capazes de impactar o leitor.
Um, entre outros desafios, se apresenta neste fazer poetrixta: a independência dos versos. Muito já se falou sobre isso. Não me alongarei no básico da questão.
Só menciono a tendência de se compor tercetos sem oração (sem verbo) como artifício para fugir do chamado fatiamento.
Em debate, sempre frutífero, com um estudioso de Língua Portuguesa e outros idiomas, que justificava a ausência de verbos nos seus poemas, veio ao contexto a citação “No princípio era o verbo”
Sim, disse-lhe eu:
- O verbo estava oculto, existia no conceito, como ideia, mas na hora de se comunicar, ele se “fez carne”, materializou-se, mostrou a face do que pairava sobre a criação:
- O criador do mundo queria se comunicar, mandar sua mensagem.
O poetrixta quer se comunicar, numa mensagem de versos com enunciados completos.
Sem engessamentos. Nada é absoluto.
Às vezes, também nos comunicamos apenas com gestos, olhares, algo em suspenso e/ou secreto e até mesmo símbolos.
Clássico-moderno-contemporâneo. É o Poetrix. Certinho na forma, ousado, atrevido, lírico, poético e imprevisível no conteúdo. Tudo o que um poeta pode ser com as palavras.
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Dirce Carneiro
Acadêmica AIP Cadeira 26
Outubro/25
Última atualização em:
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