ANÁLISE DE POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO
Por Dirce Carneiro
Acadêmica, cadeira 26
DES_A_FIO
Não mais conto os dias
Na brancura, os desfio
Fio a fio, desafia-me a velhice
José de Castro
Primeiramente, salta aos olhos a construção do título.
A desconstrução de uma palavra-verbo-substantivo (desafio) que lhe sobrepõe outros sentidos da palavra resultante: DES_A_FIO.
Se desafio fica no não dito, nas entrelinhas, na construção com os underlines, a resultante, des – a – fio, com o prefixo [des] nos remetendo a algo que já não é, relativo a fio, com a sobreposição, ainda, de outro sentido, [a fio]. A fio, nos aproxima de fio por fio, um por um, e ainda, de [afio]: um sujeito afiado, decidido, com suas escolhas bem resolvidas.
Então temos, entre o dito e o não dito, a sobreposição dos sentidos: desafio, não olhar o que passou, o que já não é; fio por fio (um por um), afio (o sujeito com suas escolhas bem resolvidas).
Realmente, é um título bem instigante, que toca na representação visual da palavra e, também, no que ela representa no não dito, no emocional, na interpretação, nas entrelinhas, no que o leitor tem a descobrir.
No primeiro verso:
Não mais conto os dias, o eu poético nos remete ao prefixo [des]. Ele descontrói o tempo, não vive do passado, sugerindo que só o presente importa. Mas...houve um tempo em que contar os dias importava: [Não mais conto os dias]. O calendário já não importa. Carpe diem, é a sugestão. Há uma época em que não podemos perder tempo e o passar dos dias nos aflige, tanta é a energia para gastar, compromissos a cumprir, desejos a realizar, medo e culpa de não dar conta, os outros e nós mesmos a cobrar. Isto tudo ficou para trás.
Segundo verso:
Na brancura, os desfio, o eu poético nos coloca diante da dualidade, estaria se referindo a dias ou, quem sabe, a fios (de cabelo?), ou aos dois?
Na brancura: [1] no que ainda há de vir, no desconhecido do tempo; [2] na sabedoria do presente, amadurecido pela vida. [3] nos cabelos brancos; os desfio: tira-lhes o peso, torna-os mais leves. Pode ser tanto com relação aos dias vividos como à simbologia dos cabelos brancos.
Terceiro verso:
Fio a fio, desafia-me a velhice: finalmente, no terceiro verso, o eu poético condensa, traz à tona o sentido da composição, desde o título. Dia a dia, o tempo presente o desafia. Viver cada dia como se fosse único, de maneira leve, mas determinada.
Conclusão:
Através da sonoridade, de recursos visuais, do léxico, de metáforas, o poeta constrói um poetrix com várias camadas de sentidos e símbolos. Até a leitura do último verso e, também depois, ainda outros sentidos ficam a nos sugestionar, face à engenhosidade da concepção, arquitetura e realização do poema. Note-se certa circularidade, tanto no aspecto formal, quanto no aspecto semântico. O poetrix nos possibilita, também, a reflexão, neste caso, uma variação sobre o tema.
Como uma única leitura não esgota o sentido de um poema, pois não é uma equação matemática, concluo optando pelo sentido de que o poeta já não se aflige com o passar dos dias, mas vive-os no presente, Carpe diem, de maneira leve, mas tenaz, desafiado pelo conhecimento do caráter do tempo, esse ser invisível, que nos espreita e confronta, mas que pode ser desfiado, tornado leve, e assim, desafiado.
Dirce Carneiro
4 de setembro de 2026
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Bom ver um trabalho publicado!!
ResponderExcluirRetomamos a coluna literária, que bom!
ResponderExcluirQuerida Andréa, eu amo fazer leituras escritas dos poemas, no nosso caso, aqui, poetrix. E é bom exercício, para não perder a prática. Obrigada pela leitura e comentário.
ExcluirConcordo com você!
ExcluirUm belo poetrix!
ResponderExcluirObrigado, Andréa... Um abraço!
ExcluirGratidão à Dirce pela leitura e análise acurada que consegue enxergar o não dito, trazendo sua bela interpretação do Poetrix.
ResponderExcluirValeu, poeta!
Bom que você você gostou, poeta José de Castro!! Foi um prazer retomar análise, depois de um longo hiato.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
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ResponderExcluirAdoro esta coluna literária. Parabéns, José, pelo belo poetrix e parabéns, Dirce, pela ótima análise.
ResponderExcluirGratidão, Bianca... Um abraço.
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